Um peregrino e dois ateus a correr até Fátima.
João Silva
Parece o início de uma anedota — mas foi, na verdade, o início de uma das experiências mais marcantes da minha vida.
A ideia nasceu de forma simples: correr até Fátima. Uns chamariam loucura. Outros, promessa. Para mim, foi um desafio. E para os meus amigos Ricardo e André, talvez apenas mais uma aventura maluca que o “ex-gordo” decidiu inventar.
Mas há algo mágico quando decides sair da tua zona de conforto, calçar as sapatilhas e seguir em frente, mesmo sem saber exatamente o que vais encontrar.
O caminho da fé (mesmo quando ela não existe)
O Ricardo é aquele tipo de pessoa que acredita profundamente. Vê sentido, propósito e silêncio em cada passo. Já eu e o André… digamos que acreditamos mais nas pernas do que nos milagres. E, ainda assim, ao longo da estrada, percebemos que há algo de profundamente espiritual em correr — mesmo para quem não acredita em nada.
Porque a fé, afinal, não é exclusiva de quem reza. É também de quem insiste. De quem continua quando o corpo pede para parar. De quem acredita que o próximo quilómetro pode ser melhor que o anterior.
Dor, riso e partilha
Foram dezenas de quilómetros de sol, dores e risadas.
O André, sempre com humor ácido, dizia: “se o São Pedro nos vê agora, está a rir-se de certeza”. O Ricardo, mais contido, respondia com um sorriso sereno, quase contemplativo. E eu, no meio deles, tentava gerir a glicemia, as bolhas e o ego — porque correr até Fátima é mais sobre humildade do que resistência.
A estrada ensinou-nos que a amizade é o melhor combustível.
Quando um vacila, o outro puxa. Quando o corpo fraqueja, a palavra certa empurra. E quando o cansaço se instala, o riso salva.
Fátima — a meta que é só o início
Chegar a Fátima não foi o fim. Foi uma espécie de reinício.
Não há medalhas, nem pódio, nem linha pintada no chão. Só silêncio. E uma sensação de que tudo o que procurávamos — fé, força, propósito — estava connosco desde o primeiro passo.
A fé do Ricardo, o ceticismo do André e a minha eterna curiosidade encontraram-se ali, na basílica, numa mistura improvável de suor e emoção.
Percebi que correr pode ser a forma mais pura de oração — mesmo para quem nunca reza.
Reflexão final
Correr até Fátima não foi sobre religião.
Foi sobre acreditar. Sobre persistir.
Sobre não desistir — mesmo quando o corpo duvida.
E, talvez, seja esse o verdadeiro milagre: continuar a correr quando a mente diz para parar.
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Há muitas formas de ter fé. A minha começa sempre com um passo.