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O que não mata, engorda e transforma-te num maratonista

De novembro de 2016 até agora, passei de 118 kg a 66 kg graças à corrida e à reeducação alimentar. Desde então, o contador vai em 40 provas: 20 x 10 km, 7 trails, 10 meias maratonas e 3 maratonas.

De novembro de 2016 até agora, passei de 118 kg a 66 kg graças à corrida e à reeducação alimentar. Desde então, o contador vai em 40 provas: 20 x 10 km, 7 trails, 10 meias maratonas e 3 maratonas.

O que não mata, engorda e transforma-te num maratonista

05
Dez20

Quando e como se pode dizer que se tem ou se perdeu a forma?


João Silva

Aqui está uma questão difícil de responder, porque tem um lado muito subjetivo. 

Ainda assim, atrevo-me a dar o meu ponto de vista:

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Como referi há bastante tempo, não é um treino bom que me dá a forma nem é um mau que ma tira. 

O que vos parece?

Se, em média, demoramos 4 semanas a assimilar as mudanças dos planos e as inovações dos treinos, não será muito viável avaliar a forma física nesse período. Portanto, só após as 4 semanas conseguimos avaliar se os desempenhos nos treinos mudaram a nossa forma.

Como se trata de um processo contínuo, é igualmente necessário comparar várias sessões de treinos durante, por exemplo, umas duas semanas para verificar se há algum padrão. Nesse sentido, se o padrão sofrer desníveis para cima ou para baixo em muitas sessões daquele período, poderemos dizer que estamos perante uma boa ou má forma. 

Falo-vos no meu caso concreto: no verão que passou, não incuti mudanças técnicas no plano, mas aumentei muito a quilometragem. Nesse sentido, podia dizer que estava em forma, porque consegui correr muitos quilómetros. No entanto, a minha média de ritmo aumentou, ou seja, piorei e precisei de maos tempo para chegar à mesma quilometragem. Portanto, embora não possa dizer que não estava em forma, posso afirmar que houve um declínio a certa altura e que o corpo não teve uma performance tão boa. 

 

13
Nov20

À atenção da FPA


João Silva

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Já alguém tentou correr de máscara?

Eu tentei em Coimbra, em pleno mês de abril, quando me foi barrado o acesso à maternidade.

Subi e desci o Cidral com o dito objeto e asseguro que é aterrador.

Portanto, está fora de questão fazer provas com esse objeto, na minha opinião.

Não sendo uma possibilidade, apraz-me referir um opção em que pensei para permitir o regresso, ainda que condicionado, de provas com vários ajuntamentos de pessoas.

Não tenho qualquer tipo de influência junto da federação de atletismo do nosso país, a FPA, pelo que, caso alguém tenha e esteja a ler isto, se quiser, pode expor a minha proposta.

Outro ponto prévio é o facto de a minha opção não ser infalível, implicar perdas financeiras e de não conseguir arranjar solução para todos os problemas. 

Ainda assim, as dificuldades atuais para todas as pessoas do setor organizativo das provas são imensas, pelo que é preferível amealhar alguma coisa, mesmo que menos do que o costume. 

Em termos de Trail, já há segmentações atualmente, pelo que a única sugestão seria restringir o número de atletas, dando primazia aos federados e com base em tabelas classificativas. Limitando o número de participantes, seria mais fácil de perceber eventuais cadeias de contágio, já que não se torna viável criar uma bolha no atletismo amador como já acontece no futebol ou no ciclismo profissional. Pura e simplesmente, não há estrutura federativa para suportar esses custos e esta modalidade, tirando os Jogos Olímpicos, não traz rentabilidade aos canais televisivos. Portanto, seria acreditar na boa fé dos atletas e no cruzamento dos dados entre as federações regionais e os clubes. Precisamente por isso é que falo em dar preferência aos atletas federados. 

Pegando agora no caso do atletismo em estrada, acho mesmo que esta seria a altura ideal para reestruturar tudo e criar um sistema muito mais aliciante. 

Se funcionasse, seria assim:

Primeira fase apenas com provas concelhias (quatro ou cinco) que seriam disputadas apenas pelos atletas amadores federados dos clubes locais, havendo depois a possibilidade de inscrever algumas pessoas na caminhada. Exemplo: limite de 300 ou 400 atletas e 100 ou 150 caminhantes. 

Do somatório dos pontos dessas provas, sairiam os 50 melhores corredores que iriam disputar mais quatro ou cinco provas, desta feita, a nível distrital. Portanto, cada concelho teria direito a apresentar 50 atletas ou, no caso de haver muitos concelhos, um número significativamente mais reduzido. 

Em cada uma dessas provas, haveria possibilidade de deixar entrar 100 caminheiros externos e sem qualquer federação. 

Terminada esta fase distrital, os 20 melhores de cada distrito iriam disputar 5 provas a nível nacional, com a organização a cargo de entidades mais experientes e que assegurassem o cumprimento de todas as normas. No caso dos caminheiros, adotava-se o mesmo esquema referido anteriormente. 

 

Este grupo final teria, desde logo, presença assegurada num campeonato de meias maratonas, com uma prova desta extensão a ser realizada em cinco capitais distritais selecionadas com base num ranking, que daria a possibilidade de mudar as cinco cidades a cada ano. A este grupo, juntar-se-iam mais uns mil atletas federados, cuja entrada seria assegurada em função das pontuações dos cinco melhores distritos. 

O mesmo mecanismo serviria para as maratonas, que, sendo três (norte, centro e sul), poderiam eventualmente permitir mais uns 400 atletas "externos", sem federação. 

No fundo, haveria menos participantes, claro, mas os contágios ficariam limitados, os clubes veriam rentabilizados os investimentos nos processos de federação dos atletas e o setor não parava. 

A solução não é mágica, como disse, mas parece-me que daria um toque interessante a tudo isto, mesmo em tempo Covid-19. 

 

 

11
Set20

Motivação vs objetivos vs corrida


João Silva

Estes três pontos estão relacionados, mas não são indissociáveis entre si.
De forma sucinta, passo a explicar:
Posso sentir-me motivado a fazer alguma coisa, a experimentar um exercício, uma modalidade sem que isso vire um objetivo de vida ou tenha qualquer influência no desenvolvimento da corrida.

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Este período de confinamento que foi vivido por cada um de uma forma mais ou menos intensa trouxe isso mesmo à tona: não perdi a minha motivação nos treinos. Em casa, todas as semanas apliquei uma carga jeitosa e só alguém com muita automotivação (obstinação também se pode aplicar aqui) consegue fazer exercícios físicos intensos sem saber o que virá a seguir. Não parei um dia, quis aproveitar tudo. Portanto, não deixei de estar motivado.

Por outro lado, esta motivação não tinha um objetivo desportivo concreto, à exceção da minha saúde. Sabia que estava a treinar mas não sabia para quê em termos competitivos, já que não havia provas marcadas.
Honestamente, dei-me bem com essa metodologia e não senti quebras anormais de vontade.

Claro que houve dias mais "fáceis" do que outros.
Como não corri nesta fase, nem a motivação nem os objetivos serviam a evolução na corrida.

Resumindo: é possível trabalhar com motivação sem ter objetivos claramente traçados e sem ser pensar apenas na corrida.
Já na primeira fase de retoma, como ainda não havia provas marcadas, este princípio manteve-se.

A motivação liderou o processo, sendo que aí passou a haver um objetivo: recuperar a forma de corredor de fundo.

Nos meses de verão, os treinos já passaram a incidir nesse propósito.

Apesar da imensa carga de treinos, a verdade é que essa tal motivação ajudou a superar fases mais duras ao longo dos últimos meses.

Como veem a questão: para vocês não há corrida sem motivação nem objetivos?

 

24
Ago20

Uma oportunidade para aquecer e não para arrefecer


João Silva

Vivemos uma fase muito complicada com muitos aspetos novos, que, sem dúvida, vieram alterar os planos de muitos.
Em termos de desporto, sobretudo no atletismo, há e vai ter de haver uma abordagem diferente. É um desporto onde o nível de contágio é elevadíssimo, apesar de ter uma forte componente de ar livre.
Como não podia deixar de ser, houve muitos adiamentos e cancelamentos de provas.

Razão que me leva ao ponto de afirmar que não competirem oficialmente em 2020.
Na verdade, já achava que não seria diferente, mas relativamente aos priemrios sete meses do ano, já que o nascimento do Mateus obrigava a uma grande readaptação.


O que não contava é que essa decisão se estenderia aos últimos seis meses deste ano.
Na verdade, tendo em conta as minhas dúvidas em termos de forma e o meu receio com a disseminação da doença Covid-19, até "deu jeito" ter a decisão tomada por mim.


Por outro lado, como regressei aos treinos de estrada no final de maio, já me sentia mais capaz de preparar algumas provas a partir de setembro.
Assim sendo, nada feito.


Vendo noutra perspetiva, tudo isto gera uma enorme oportunidade: a de ter tempo para definir bons objetivos de corrida para 2021, a de escolher as provas com detalhe e a de fazer uma boa preparação em termos de treino.


Portanto, aqui reside o foco e a responsabilidade: fazer deste tempo a rampa perfeita para estar bem e em forma.


Se não deixar que a irresponsabilidade tome conta de mim nem que o ímpeto leve a melhor, será uma época perfeita para treinar e adotar novos métodos de treino.

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Se...

22
Ago20

De génio e de louco todos temos um pouco


João Silva

Tenho de discordar do ditado popular porque de génio tenho muito pouco ou nada.

Do segundo, tenho para vender.

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No caso, a propósito do arranque da segunda fase do meu processo de desconfinamento na corrida, passei a corrida de três sessões semanais para quatro, mas acabei a fazer cinco.

Sendo honesto, mais do que fui quando gizei o plano, já sabia que não me contentava com quatro.
Tudo se iniciou na semana de 08 de junho.

Nas cinco sessões, fiz 2 horas de corrida em cada uma, uma média de 23 km por treino, ou seja, passei a barreira dos 100 km numa semana.
Nada de novo em mim ou não fosse o facto de ter feito, pela primeira vez, quatro sessões seguidas com um tempo mínimo de 2 horas.
Não fui o primeiro nem serei o último a fazê-lo, mas tenho de reconhecer a estupidez para o corpo.

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Como podem ver pelas imagens individuais das sessões, a dureza e a carga foram aumentando com a repetição da distância.
Moral da história: na segunda-feira seguinte, no dia 15, tive de fazer bicicleta, pois o joelho esquerdo inchou e começou a agradecer-me com dores infernais.

Essa é a paga (bem merecida) por uma abordagem irresponsável, imprudente e displicente.

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12
Ago20

Análise ao semestre passado


João Silva

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Esta análise habitual é um pouco bizarra em 2020, isto face à ausência de provas da minha pessoa, primeiro, por motivos pessoais, depois, por causa da pandemia.

Como mostram as imagens da minha aplicação de gestão, andei imparável de janeiro a meados de março. Nunca corro tanto e nunca me senti tão vivo e desafiado em termos de resistência.
Bati os meus recordes de corrida e isto num nível aceitavelmente bom e constante face ao mesmo período de 2019. Não me posso mesmo queixar, porque o meu corpo foi tirando proveito da forma alcançada no final de 2019.
Chega-se a pandemia e o método se treino muda: os pés largam a estrada e aterram na pedaleira da estática. Para manter o nível de perda diária, aumentei a carga em meia hora face ao que teria feito em estrada.
Como se pode ver, o número de km em abril (percorridos na estática) constituíram um autêntico recorde de treino.
Após o nascimento do meu filho e alguns ajustes na rotina da família, no final de maio, foi hora de retomar a estrada e de ainda ir a tempo de passar os 100 km.
Em junho, já com uma metodologia mais definida, aumentei a carga e a duração dos treinos.
O que os gráficos não mostram é a intensidade, a duração nem mesmo a frequência dos trabalhos de reforço muscular que foram uma constante em todo o processo, com especial incidência nos meses sem estrada.
Além disso, para final, também não fica evidente que quis retomar maio e junho como se nunca tivesse deixado de correr e esse foi um enorme erro do meu corpo, ou melhor, meu.

06
Ago20

O que diz o meu corpo


João Silva

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Andei tempos sem fim a remoer nesta questão. No fundo, a pensar se escrevia ou não isto, talvez porque não quisesse saber mesmo o que o meu corpo diria dos meus tratos para com ele. Talvez fosse, sem dúvida, isso mesmo.
Houve dias em que a minha má disposição é o meu feitio miserável me fizeram ver as coisas pelo lado negativo. Porém, também houve muitos dias em que prevaleceu um pouco de bom senso, porque nem tudo foi ou tem sido mau.
Se virmos numa perspetiva global, sim, tenho feito mal a mim próprio desde que nasci, quase.
Comecei cedo a comer porcarias, não tive cuidados, não conheci limites nem fronteiras para a gula e fui desleixado.
Depois vieram anos de alguma ponderação e juízo, para apanhar os cacos, na fase da adolescência.
Na primeira fase da vida adulta, voltou tudo à estaca da autodestruição, até que, há 3 anos e meio às coisas voltaram a equilibrar.
No entanto, se o meu corpo pudesse analisar melhor o que tem sido transportar esta mente, diria que substituí o vício de comer pelo de correr mas que continuo nos excessos e sem o respeitar.
Não faço mais do que os outros que treinam, mas sei que exijo demasiado do corpo, não lhe dou descanso, submeto-o a treinos intensos. Não que sejam mais duros ou melhores do que os dos outros, mas são mais desregrados, quase loucos pela acumulação selvagem de dureza e intensidade sem (querer) perceber que às vezes (sempre) a chave está num bom descanso, sem definir limites, sem procurar o equilíbrio.
O meu corpo diria que não conheço o meio-termo, embora me esforce para pensar nele, que o submeto à cargas de treino como forma de me castigar pela minha (in)disciplina, pelo meu desnorte que se confunde com falta de metodologia e incapacidade para ter calma e paciência.

Consciente de tudo o que se passa com ele, o meu corpo diria que o castigo com exercício intenso só para poder ter desculpa na hora de comer, sendo o mais estúpido aqui o facto de não comer açúcar, produtos processados nem doces ou fritos. A estrutura que suporta o meu cérebro gritaria por ajuda, se pudesse, pois sabe que, por vezes, só o castigo para ter a desculpa perfeita para comer mais do que o normal e adequado ao meu treino.
Se pudesse, entregar-me-ia a um hospício de cada vez que o obrigo a correr com dores lancinantes no joelho, daquelas de coxear, ou de cada vez que as virilhas e as coxas ficam tão duras que parecem querer rasgar a cada passada.
Paixão pelo desporto muitos têm.
Aqui não sou exceção.
No entanto, o meu corpo afirmaria em tribunal, se me pudesse levar lá, que uso o termo paixão para justificar aquilo que é uma substituição de um vício por outro, aquilo que funciona como um mecanismo de desculpa para evitar a culpa de comer ou mesmo aquilo se diz ser dedicação e, na verdade, não passa de uma obsessão e de uma obstinação.
Se pudesse fazer um julgamento da minha personalidade numa frase, o meu corpo diria que, para ele, sou uma má pessoa disfarçada de boa.

19
Jul20

Onde para o descanso quando é mais requisitado?


João Silva

 

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Descanso é treino. É uma forma de recuperar do esforço e de permitir que o corpo assimile os tratos dados na sessão de treino ou em competição.

Que um pai recente é uma pessoa cansada, disso não há dúvidas. Nem sequer me estou a lamentar. Não fui o primeiro e não hei de ser o último a passar por isso. Portanto, faz parte do processo.

Aqui o foco do cansaço vai depois para a (in)capacidade para o meu corpo dar uma resposta funcional. Nos últimos meses, regra geral, os treinos parecem sessões de tortura, não pela falta de vontade, porque isso não entra neste dicionário, mas pela falta de frescura física para responder à altura do que quero.

A capacidade mental diminuiu muito desde o dia 30 de abril. Na verdade, embora estivesse longe de saber qual a dimensão da pancada, estava certo de que a levaria. Só não sabia que iria passara alguns treinos como zombie. A sensação que tenho, e sei que é apenas fruto do desaste do momento, é que o descanso não existe. E sem ele fica mais difícil fazer alguma coisa de jeito em termos físicos.

Estou naquela fase de tentar encaixar o trabalho com a paternidade e com os treinos. Nada de novo, nada de especial, nada digno de palavras de ânimo. Apenas a constatação de um facto e sei que sou um "afortunado" por poder trabalhar a partir de casa . Ainda assim, tal significa que são muitas as vezes em que acordo às 4 ou 5 da manhã, no fundo, aproveitando o embalo dos despertares do senhor Mateus, e vou treinar...Quer dizer, vou mexer o corpo e tentar fazer algo pela minha saúde, o que acaba por ser um contrassenso, tendo em conta que isso deveria implicar descanso. Só que eu roço a estupidez e a mediocridade a esse nível e aí fica mais díficil. 

Sou um pouco a personificação daquele ditado: "os cães ladram e a caravana passa". Conclusão: cansaço e saturação nos píncaros, descanso nas lonas, sanidade mental e física inexistentes.

23
Mai20

A falta que fará


João Silva

Ponto prévio, só porque não me sinto com paciência para dar ideias erradas: não, o texto não serve de arrependimento de nada na minha vida.

É só uma forma de expressão do meu estado de alma, que, no fundo, traz um acumulado dos últimos 2 meses e meio. 

E, olhando para a frente e perante a incerteza que nos rodeia mas que também já estava contemplada na minha vida, fica aquele travo a dúvida sobre o que virá. Sobre o que não virá. 

Sobre as passadas que não darei, as séries que não farei, as rampas que não subirei ou as estradas que não (per)correrei.

Deixamos umas coisas para ganhar outras. No entanto, isso não significa que devamos deixar de dizer que sentimos falta do que ajuda a completar o ser que somos. 

Ainda não cheguei lá, mas sei, desde já, que sinto falta do que não vou fazer. Talvez o que fizer ajude a equilibrar essa saudade. 

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21
Mai20

A falta que faz


João Silva

11 de março foi o último dia em que corri ao ar livre. Mais de dois meses e já nem sei o que é pôr os pés no asfalto e voar sem destino por tempo ilimitado. 

Não sou diferente de ninguém, nem sequer me estou a queixar por ter tido de ficar em casa, numa primeira fase, devido à situação de quarentena. Chama-se respeito pela minha vida e pela dos outros, ao contrário de muitos que escolheram continuar como se nada fosse. Negacionistas, I say. Ainda assim, aos poucos, as coisas estão a encarreirar e todos estão a a criar uma nova realidade.

Depois da mudança forçada de metodologia de treinos, sendo curioso o facto de ter começado a treinar ainda mais no tempo em que estive sempre em confinamento, entrei numa limitação diferente. No fundo, era aquela com que já contava desde agosto de 2010: a paternidade.

Agravada pela situação pandémica que vivemos, a saudade e a falta cresceram.

Mas saudade e falta de quê?

Daquilo que se tornou o meu ponto de equilíbrio nos últimos três anos e meio (celebrados há dois dias).

De sair de casa com as sapatilhas calçadas e de sentir o fresco e o quente no corpo. 

De subir a primeira "ladeira" de Condeixa.

De passar junto à escola e ao estádio e de praguejar com tanto carro a passar. 

De ouvir os apitos de conhecidos l. 

De dizer olá ao senhor que passeava o cão todos os dias e que já me conhecia há mais de 3 anos. 

De seguir para Alcabideque e de passar pelo velhinho pastor alemão que guardava um terreno. 

De cruzar o Bom Velho de Cima a arfar e de descer pelo lado oposto, no IC3 rumo a Condeixa.

De subir pela Casa telhada, sem viv'alma por perto, e de ver a raposa ao longe a fugir.

De sentir o ar puro da estrada de Alcabideque.

De subir ao Casal da Légua depois de ter descido pela Venda. 

De tudo isso sinto uma falta de "morte".

Enquanto pude, treinei o mais que deu, portanto, nem sequer é um lamento. Fui um privilegiado em relação a muitos e não descuro isso. 

Porém, constato uma falta que sinto: correr.  Faz-me mesmo muita falta.

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07
Mai20

Silêncio de ouro


João Silva

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Quem se revê neste título?

Há já muito tempo que pensava nisso.

Não se trata de não querer falar com os outros ou de ser associal. Nada disso.

Sou uma pessoa social e extrovertida, embora privilegie o meu canto e as minhas pessoas em detrimento de saídas constantes.

No caso, não estarei a dar novidades a ninguém ao revelar que o silêncio é um processo muito útil no nosso quotidiano.

Em várias etapas da minha vida pude comprovar isso mesmo. Aquela em que notei mais esse impacto foi na minha profissão.

Enquanto tradutor, trabalho maioritariamente sozinho e apenas "falo" com o computador. No entanto, houve alturas em que tinha constantemente os podcats ou vídeos do Youtube ligados "como companhia".

 Se, por um lado, ajuda a ter a sensação de que não estamos sós, por outro, perturba o raciocínio. Pelo menos, no meu caso. Reparei que trabalho melhor sem esses "intrusos". E vocês?

Curioso ou talvez não, corro muito mais vezes com música ou podcasts do que com o silêncio. Sou um lobo solitário em termos de treinos, mas com os podcasts ligados sinto que nunca estou só. Quem se revê nisto?

Ainda assim, por uma questão de higiene auditiva, de tempos a tempos, preciso de correr sem ruído de fundo para poder absorver todos os sons naturais dos espaços que me envolvem.

Vocês são iguais?

03
Mai20

Treinador até quando?


João Silva

Uma vez mais, este "material" de trabalho veio da audição de podcasts.

E, invariavelmente, surgiu de um áudio sobre ciclismo.

A dada altura, um dos treinadores referiu que o grande objetivo dele era treinar a filha até que ela chegasse ao ponto em que não precisaria mais dele para evoluir mas escolheria continuar com a colaboração.

De seguida, o outro elemento participante no debate referiu que a maioria dos profissionais sabe o que fazer em termos de treino e que o treinador acaba por servir como agregador, motivador e disciplinador.

Sem dúvida que fiquei intrigado com estes dois pontos de vista.

E, na verdade, consigo perceber bem a ideia: dar-nos as ferramentas para que saibamos como podemos evoluir.

Dou um exemplo onde a presença de um treinador se revela importante: na leitura dos dados dos treinos. Mais do que ver os números objetivos e por vezes cruéis, o treinador vê a evolução e procura transmitir essa ideia ao atleta.

Portanto, em jeito de conclusão, diria mesmo que esse pode ser o lado mais importante do treinador: fazer acreditar que o trabalho é bem feito nos dias em que o desempenho não é o melhor.

Como disse um deles a dada altura: é impossível ter treinos de topo todos os dias.

Não tenho treinador e, honestamente, dificilmente virei a ter, já que gosto de evoluir por mim e sem pressões externas. Já bem basta as que coloco em mim. Ainda assim, reconheço por inteiro a necessidade de contar com um elemento capaz de disciplinar e, no meu caso, de puxar o travão quando começam a aparecer excessos.

Posto isso: faz sentido manter um treinador para sempre ou há uma altura para abdicar dos serviços?

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24
Abr20

Uma espécie de corrida


João Silva

Hoje deu-me para isto, pelo que aqui vos deixo com uma espécie de ode à corrida, um sortido de pensamentos desconexos mas ligados de certo modo:

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Corro...

para me perder

para deixar as lágrimas sair

para me encontrar

para saber quem sou

para afastar quem não quero ser

para ganhar disciplina

para perder a razão

para ganhar emoção

para libertar a tensão

para ser melhor

para não cair nos erros do passado

para descobrir o futuro

para encontrar o presente

para alinhar estratégias

para descobrir como chegar onde quero

para me sentir vivo

para me sentir poderoso

para manter o controlo

para perder a insanidade

para ver a verdade

para contemplar a natureza

para me afastar da tristeza

para ganhar um novo eu

para enterrar a amargura

para dar asas à loucura

 

Não preciso de razões para correr

mas corro para me vencer

corro para não me perder

corro para não me deixar morrer!

 

22
Abr20

O cancelamento pode significar perda de forma?


João Silva

Uma vez mais, este tema surgiu-me como apropriado para este espaço na sequência do podcast "magistral" Dans la tête d'un correur.

Durante um treino, lá veio este assunto e foi aí que me dei conta da sua pertinência. Claro que é extensível a qualquer modalidade e a qualquer atleta, sendo que aqui o foco foi dado aos profissionais.

Será que o adiamento (como aconteceu, por exemplo, com a Meia Maratona de Paris ou a Maratona de Paris) pode ditar a perda de forma de um atleta?

Fala-se nestes dois eventos por exigirem uma preparação de semanas.

Tal como o treinador que aparece no podcast, também acho que, em primeira linha, nunca se trata de perda do que quer que seja. Sendo desporto e sendo praticado com moderação e inteligência, é sempre vantajoso para o corpo.

Claro que há um grande constrangimento, porque chegar ao pico de forma requer disciplina, foco, sofrimento e concentração. Ou seja: implica restrições e "abstinências". Implica escolhas e metodologias.

Nesse sentido, é normal e saudável que haja manifestação de desabafos e de queixas. No caso em análise, os motivos residiam na proliferação do novo vírus, o que, claro está, era nefasto para todos os participantes. Portanto, como forma de deixar a panela de pressão libertar algum vapor, no dia da prova ir fazer uma corrida longa. Em todo o caso, já era isso que iriam fazer.

Voltando à questão do pico de forma, estima-se que aguentará assim durante 4 semanas, pelo que, havendo outras competições, é possível canalizá-lo até ao próximo grande evento.

Por outro lado, parte-se de um princípio de que só se tem "aquela prova". É por isso que falo sobretudo nos profissionais. Nesse sentido, importa também transportar esta ideia para eventos muito distanciados, como o caso das maratonas, em que não é aconselhável realizar várias de enfiada ou em datas muito próximas. 

Posto isto, acrescento ainda que é necessário canalizar o foco para o que vem a seguir. Se pensar que não valeu a pena ter passado por todo aquele esforço, então vou perder rapidamente a motivação.

A prova deve ser o auge da preparação, mas, no meu entender, não deve ditar a exclusiva motivação do atleta.

"Nada se perde, tudo se transforma."

Concordam?

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12
Abr20

E se...


João Silva

Gosto de pensar no "se", mas, neste caso, apenas como exercício de imaginação, sempre útil na vida de cada um.

Pergunto-me algumas vezes como teria corrido o último ano sem estas mudanças.

Desde logo, não teria sido tão feliz.

É verdade que o início foi "demorado", já que sou alguém com dificuldades em abraçar as mudanças. Não sou neofóbico, mas tenho alguma relutância em tudo encarar o imprevisto com "facilidade".

Ainda assim, sendo a notícia mais importante e mais feliz da minha vida, é fácil de perceber que o ano teria sido mais cinzento sem esta bela novidade.

Portanto, na sequência, sem a força do pequeno Mateus, que, na altura ainda não tinha nome, nunca na vida teria conseguido acreditar que chegaria a uma marca inferior a 1h30 na meia maratona e a 3h30 na maratona. Portanto, só tive a ganhar. Só a minha grávida sabe o quanto tudo isto me ajudou a tirar aqueles pozinhos extra do meu desempenho.

Depois, certamente, teria entrado em mais competições e dificilmente teria continuado a treinar todos os dias da semana com a intensidade com que o fiz. Teria feito mais vezes treinos de três horas, mas também sei que andaria mais "morto" por causa dos esforços e da falta de descanso.

E não pensaria nem valorizaria tanto o que tenho nem a realidade que me rodeia. Passei a contemplar mais e sentir-me ainda mais grato, sobretudo, por ter uma mulher fantástica que vê em mim aquilo que não vejo e por poder praticar uma modalidade que me completa a todos os níveis.

De certeza que andaria mais focado numa eventual preparação para a maratona de Aveiro que se realiza agora em abril. No entanto, a chegada do nosso Mateus enche-me de tal forma o coração que me "basta" poder treinar e correr pelo concelho. O mágico nisto, embora já o soubesse, é que não dependo das provas para manter a disciplina de treino. As provas são importantes para darem algum sentido ao treino, mas não são decisivas para fazer o bem pela nosssa própria autoestima.

Portanto, de nada serve pensar no "se". Importa perceber como utilizar a realidade a nosso favor.

 

P. S. : Este texto foi escrito muito antes da pandemia e do respetivo estado de emergência. Não que tenha de me justificar, mas desde 11 de março que treino apenas em casa. Aliás, as saídas foram reduzidas à reciclagem e às consultas. Não mais corri pelo concelho e nem sonhava que a maratona de Aveiro iria ser mudada para outubro. Aproveito para desejar publicamente boa Páscoa a todos. 

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  36. S
  37. O
  38. N
  39. D