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O que não mata, engorda e transforma-te num maratonista

Em novembro de 2016 era obeso. Depois comecei a correr, eduquei a minha alimentação e tornei-me maratonista. Mais tarde, tornei-me pai. Correr é uma das minhas paixões. Ser pai é outra. Corro todos os dias.

Em novembro de 2016 era obeso. Depois comecei a correr, eduquei a minha alimentação e tornei-me maratonista. Mais tarde, tornei-me pai. Correr é uma das minhas paixões. Ser pai é outra. Corro todos os dias.

O que não mata, engorda e transforma-te num maratonista

23
Nov21

Começa-se do zero?


João Silva

Uma lesão é o "ponto negativo máximo". Normalmente, daqui não se desce mais. 

É a subir.

Uma vez curada a lesão, é hora de retomar os treinos.

Mas não se vai para a estrada nem se começa logo a correr à bruta. Os primeiros tempos são de habituação ao "novo corpo".

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Um corpo lesionado ou que curou uma lesão é um corpo com uma nova dinâmica. É preciso percebê-lo e ouvi-lo e isso não se faz de um momento para o outro.

É um começar do zero sem ser um começar do zero.

Passo a explicar: é um regresso ao início com uma evolução cuidadosa e progressiva. É uma interação entre caminhada e corrida. É um passo a passo.

Mas já é um início com um passado de cinco anos na modalidade e, portanto, há conhecimentos que se vão adquirindo. Há uma parte da etapa que já está interiorizada. Falo de aspetos como postura, posição e respiração.

Há um registo no corpo que é ativado no momento da primeira passada. E que saudades dessa passada na estrada...

 

21
Nov21

Os sonhos


João Silva

Não falo dos futuro, falo dos que ocorrem mesmo na nossa cabeça.

Sintomático ou não, foram poucas as vezes em que sonhei com corridas durante cinco anos.

Até que me lesionei e o cérebro decidiu aliar-se à "dor" em duas circunstâncias.

Já em pleno tratamento, numa altura de evolução positiva, eis que a fábrica de sonhos do corpo me presenteou com um episódio fantasioso em que estava a correr todo feliz e contente. Mesmo assim como quem dá esperança!

Para depois ma tirar com um sonho (pesadelo) logo no dia seguinte em que uma saída fictícia para treinar acabava comigo ainda mais lesionado.

Curioso também aqui isto ter acontecido num dia de mais dores.

E ainda dizem que o lado psicológico é irrelevante... Está bem, está!

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Isso e que os nossos receios não nos podem condicionar!

Felizmente, neste regresso ainda não houve recaídas...

 

18
Nov21

Estabilidade, equilíbrio e força


João Silva

Esta tríade é indissociável e foi a chave do tratamento da minha zona sacro-ilíaca e da banda iliotibial.

Os exercícios que tive de fazer na fisioterapia visaram sobretudo a estabilidade da perna. 

Depois de lhe dar equilíbrio, era necessário reforçá-lo para que a estrutura óssea pudesse voltar a suportar o impacto. 

O trabalho incidiu na zona média do glúteo, nos adutores, nas virilhas e na zona lombar baixa.

Na devida altura, recorrerem a algo gráfico para vos mostrar o lado prático dos exercícios necessários.

Para já, deixo algumas aprendizagens que fui obtendo:

- postura direita para não deixar a perna direita desalinhar: percebi que a minha perna direita e o meu joelho têm tendência para virar para dentro no movimento (por causa da banda);

 

- pontos específicos de realização da força: ativação constante dos abdominais para garantir que não havia levantamento da "bacia" e da anca;

 

- movimentos lentos e diretos, bem prolongados, para garantir a estabilidade da perna;

 

- rotação da pélvis e da zona sacro-ilíaca em básculas para dar mobilidade;

 

- alinhamento dos joelhos com a ponta dos pés para impedir movimentos irregulares e impulsivos para dentro;

 

- postura em bicicleta estática: joelho alinhado com a ponta dos pés, perna direita, movimento seco e costas não arqueadas, direitas. 

 

A moral da história é que este tipo de exercícios passou a integrar permanentemente o meu plano diário de treinos.

14
Nov21

(Re)equilibrado


João Silva

Gosto de escalpelizar os acontecimentos. Até de mais. Seja como for, gostava de abordar melhor tudo o que fui aprendendo enquanto tentava recuperar da lesão com a ajuda daa fisioterapeutas da clínica Reequilibra, sediada em Coimbra.

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Desde logo, as trocas de ideias serviram para reforçar a consciência que tinha do meu problema. Não é um "eu estava certo e a médica de família errada". Nada disso, é mais "eu estava atento e sabia o que se passava comigo."

Depois disso, foram os exercícios de reforço muscular que tive de fazer para ajudar o músculo a recuperar e a ficar mais estável. Ganhei alguns exercícios novos e, acima de tudo, ganhei dicas de correção postural, porque uma boa postura é essencial para não agravar os problemas.

Da mesma forma, ajudaram-me a ter uma maior consciência da importância da estabilidade na corrida. Os nossos músculos estabilizadores são fundamentais. Graças ao pessoal médico, passei a analisar melhor o alinhamento das minhas pernas e a procurar uma postura correta.

Posso dizer que me devolveram o equilíbrio, que me deixaram reequilibrado. 

Acima de tudo, deixaram-me também com muito mais conhecimento e isso é tão valioso quanto a recuperação em si.

Já me conheço, sei que vou passar a integrar estes exercícios no meu treino diário de corrida. E isso é muito bom. Pelo menos, espero que evite as recaídas.

O processo global de tratamento ainda não está terminado, mas agora entrei numa fase de testes, de readaptação à estrada.

Uma corrida de cada vez. E já foram oito. Sem passar os 35 minutos. E sabem que mais?

Custa mais do que fazer 30 ou 40 km. Sim, foi como se tivesse havido um reset na máquina, que, por agora, está a ganhar resistência como das primeiras vezes.

 

13
Nov21

Gratidão


João Silva

Agora que a lesão ficou praticamente debelada, apraz-me agradecer a quem me ajudou a chegar aqui, à fase em que já posso correr de forma gradual. 

Começo pela minha família chegada, que me aturou e apoiou mesmo quando não mereci. Lidaram com o meu mau feitio dia e noite e com todas as minhas ansiedades e hesitações. 

Depois tenho de agradecer mesmo à equipa ARCD Venda da Luísa. Quantas equipas amadoras prestam assistência gratuita aos seus atletas? 

Tenho a certeza de que foram a chave para que me pudesse tratar em condições.

Foram prestáveis, atenciosos e colocaram-me à vontade, mesmo sabendo que eu acrescento zero valor à equipa e que nem sequer uma prova fiz nos últimos 12 meses. É algo que mexe e que dá vontade de retribuir, sobretudo, na estrada, embora esta equipa se dedique quase exclusivamente ao trail.

Por último, apraz-me deixar uma palavra de gratidão a quem cuidou efetivamente de mim na clínica Reequilibra.

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Foram muitas sessões de fisioterapia (com mais algumas de acompanhamento pela frente). Muita paciência para me aturar e para encaminhar a recuperação. 

Em todo o processo, senti sempre que queriam ajudar. Não sei como poderei agradecer tamanho cuidado. Ocorre-me uma ideia: valorizando os conselhos que fui recebendo e integrando todo o reforço muscular na minha rotina de treinos.

 

08
Nov21

As rédeas

E as felicitações pré-maratona


João Silva

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Neste processo todo da lesão e da recuperação (ainda em curso), houve muitos dias em que foi difícil segurar o ímpeto de sair para correr.

Nunca o fiz, talvez por saber que era mais importante para depois não ficar arrumado, mas, ainda assim, vontade não faltou.

Sobretudo nos dias de muita frustração e stress, teria dado jeito. 

Em certos dias, via pessoas a correr à minha frente e só me apetecia ir.

E nos inícios dos inícios nem sequer conseguia correr "instintivamente" para ir ter com o Mateus quando ele fazia algumas macacadas.

E ia na mesma, mas tinha de ser ao mancão (pé coxinho).

Mas esses momentos foram sempre as rédeas. Os alertas de que era preciso esperar. 

Lá teve de ser. Há coisas bem piores. Mas foi difícil.

Depois "resignei-me" e deixei de tentar forçar. Deixei que as coisas viessem naturalmente e os movimentos foram ficando mais soltos com a evolução do tratamento.

Hoje, mesmo com algumas dores normais da retoma, já são visíveis as melhorias e a liberdade de movimentos. 

Agora as rédeas já não são apenas físicas, têm de ser mentais. Porque o corpo me diz que só alinha se correr pouco e devagar. E eu tenho de aceitar.

Com a de hoje, já foram seis sessões de corrida. Sem passar os 25 minutos por agora. 

Pouco mas bom, pouco mas promissor, pouco mas muito melhor. É por aí o caminho...com o travão de mão sempre na dita, porque a rédea tem de ser curta...

 

P.S.: a maratona do Porto realizou-se ontem. Por ser o dia em si, bateu uma certa tristeza por não poder estar. Mais ainda ao trocar mensagens com dois bons companheiros de "armas" que lá estiveram, o José Carlos e o Ricardo Veiga.

Vejo no Zé o exemplo do que quero ser daqui a vinte anos. Um atleta que não se nega às grandes distâncias. Que as respeita e domina.

E vejo no Ricardo a garra e a vontade de fazer as coisas certas, a autoprovação, a autossuperação. A força de vontade que está sem se ver a olho nu. 

Fiquei muito contente por saber que foram à luta. 

Já agora, parabéns a todos os meus conhecidos que lá estiveram. Foram e são uns bravos.

Tive a oportunidade de estar presente, nem que fosse a apoiar, mas a alma ia sofrer muito. Já sofri só com as mensagens. Ia fazer-me mal e prejudicar o meu processo de recuperação. Preferi ficar (ao) longe...

 

01
Nov21

A decisão


João Silva

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Foram quase nove semanas de paragem, sem que o corpo me deixasse correr sem dores e com medicamentos e fisioterapia.

Naturalmente, ia fazer mossa. 

Os músculos das coxas encurtaram, comecei a perder massa muscular e ainda tinha o facto de a lesão original me ter afetado os músculos estabilizadores.

Perante isto e o devido aconselhamento, não dá para estar em condições mínimas no Porto (também não iria querer ir apenas pelo mínimo, honestamente). Portanto, nada de maratona este ano. A prova realiza-se já no domingo. Era só somar 1+1. Dá para ver que ia acabar com uma recaída no bolso, frustração de sobra e tempo perdido materializado numa manhã longe dos meus, sem poder fazer nada.

O mais importante é retomar a corrida com calma e ir gradualmente.

Penso que voltarei a correr uma maratona, mas terei de esperar. Terei de saber esperar.

Mas voltei a correr e isso supera tudo o resto. Já foram três sessões de corrida, nenhuma acima dos vinte minutos. Mas foram tão boas, apesar de algum desconforto expectável.

Há que aprender a valorizar as pequenas vitórias para se valorizar mais aquela que procuramos.

Esta é também uma lição para si, senhor João Silva.

05
Out21

Repousar ou o flagelo de um "mexilhão"


João Silva

Repouso. A arte de não forçar o corpo para o ajudar a recuperar. Tudo muito belo na teoria. Faz todo o sentido parar a dada altura para depois regressar bem.

O único senão disso é quando o repouso é administrado a alguém que passa muito pouco tempo sentado ou deitado, a alguém que não pára quieto por esta ou aquela razão.

Como não podia correr nem fazer exercício intenso, procurei fazer algumas atividades a pé. Para entreter o filhote, não me neguei a fazer caminhadas com ele ao colo no ergo baby (onde tive dois belos momentos de dores sem sequer conseguir levantar a perna). Em vez de ir de carro ao centro de saúde, fui a pé (mais de 1,5 km para cada lado). Ainda que com muito menos intensidade, fiz estática (a própria médica aconselhou, mas também recomendou calma). Ou seja, parei de correr, mas não parei de fazer exercício. Passei para a estática e para o reforço muscular. Mas não repousei o suficiente. E poderei ter atrasado assim o processo de recuperação.

No entanto, em abono da verdade também é relevante dizer que esse exercício todo ajudou a manter o foco no regresso e que foi útil para recuperar a mobilidade e a flexibilidade.

IMG_20210710_055952.jpgNuma fase mais avançada da lesão, onde a medicação ajudava mas a dor teimava em não desaparecer, tive de recorrer a sessões bidiárias de alongamentos para ajudar o músculo piriforme. 

Já no tratamento de fisioterapia dediquei-me ao reforço muscular e à bicicleta estática. Sempre com o consentimento de quem me tratou. A condição era não provocar dor.

 

03
Out21

Entre a esperança e a desilusão


João Silva

Foi assim que vivi o período após o treino de 04 de setembro em que me lesionei.

Percebi logo que aquilo não tinha sido um episódio como outros em que consegui correr apesar de ter dores. Era uma lesão. A lesão que sempre achei que apareceria.

E com isso chegou o medo maior: O de não estar na maratona em novembro. Depois veio a calma e a ideia de que ainda havia tempo até ao dia da prova.

No entanto, comecei a gerar outro pensamento: com esta paragem da corrida ficava sem grandes perspetivas para um grande desempenho.

Até ao dia em que fui ao médico para ser avaliado, ora alimentava a esperança e o espírito combativo ora me deixava dominar pela tristeza e pela desilusão de quem, no fundo, sabia que tinha perdido um sonho que estava a construir.

O primeiro diagnóstico foi uma contratura no glúteo. E, efetivamente, o músculo estava duro e eu não conseguia abrir a perna, por exemplo. Nova ida ao centro de saúde uma semana depois e aí comecei a perceber que tinha um problema mais permanente.

Injeção para aqui, relaxantes musculares e anti-inflamatórios para ali. Nada de corrida, só bicicleta estática e reforço muscular. E repouso. Mais uma grande dose de esperança depois de deixar o centro de saúde. Mais uma dose de desilusão quando tive de lá voltar uma semana depois.

Logo de seguida, mais uma enorme dose de desilusão por não sentir evolução positiva no problema e por ver que a segunda médica percebia pouco do que se estava ali a passar.

Este limbo dos dois primeiros dias estendeu-se às três semanas seguintes.

IMG_20210807_053510.jpg

O desespero tratou de fazer o resto. Diz, quem viveu comigo nesse tipo, que o meu feitio ficou ainda mais detestável.

Gostava de dizer que não tinham razão...

Ao fim de três semanas, ganhei juízo e falei com a equipa. Fui visto na clínica que trata os elementos da ARCD e recebi a notícia de que tinha um bloqueio na zona sacro-ilíaca e uma tensão na banda iliotibial. Este tempo todo sem correr provocou também um encurtamento muscular na perna direita. 

No meio da desilusão de todo este tempo sem saber o que tinha, também houve espaço para a esperança. Tinha mais 2/3 semanas de tratamento localizado.

Esperança no regresso...

 

 

01
Out21

Foi ali que tudo parou (por uns tempos)


João Silva

Estava no penúltimo treino do segundo ciclo para a maratona. Estava no final da nona semana de treinos sem quaisquer paragens. Era dia de treino longo.

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Depois de uma noite com um bebé ao colo, comecei com algumas dores nas costas. Nada de anormal, pensei. Já tinha acontecido. O treino não estava a correr extraordinariamente bem.

Ao quilómetro 24 voei no bom sentido. Atingi o ritmo que queria e pensei que o treino tinha valido por aquela ponta final.

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Só não consegui prever que aquele seria o último treino de corrida durante algum tempo. Durante muito tempo. Demasiado tempo.

Ainda antes de acabar o treino, perto do quilómetro 27, senti um pequeno desconforto algures entre o glúteo médio e a zona lombar. Não foi nada de mais, mas comecei a sentir dificuldades para correr ao mesmo ritmo.  Quando parei, dez minutos depois, já não consegui andar em condições. A partir daí, fui tendo muitos problemas para mover a perna direita. O ato do pé a tocar no chão era muito doloroso.

Como previsto, fomos visitar os meus pais e senti dores de morte para ter o meu bebé ao colo. Mover a perna em condições era uma miragem. Percebi logo que não iria correr no dia seguinte.

Caminhar era um suplício. Havia movimentos "finos" em que não conseguia mexer a perna. Temi o pior e aconteceu o dito.

Estava longe de saber que aquilo ia comprometer (e mudar) a minha evolução para a maratona do Porto de 2021. Estava longe de tudo, sobretudo, de poder voltar a treinar.

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