Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Tira o rabo do sofá

Em 2016 era obeso. Hoje sou maratonista com 8 maratonas e mais de 70 provas. Partilho histórias, dicas para iniciantes e motivação diária para te ajudar a perder peso e sair do sedentarismo. Tira o rabo do sofá!

Tira o rabo do sofá

Em 2016 era obeso. Hoje sou maratonista com 8 maratonas e mais de 70 provas. Partilho histórias, dicas para iniciantes e motivação diária para te ajudar a perder peso e sair do sedentarismo. Tira o rabo do sofá!

Tira o Rabo do Sofá

https://youtu.be/9sw9AHC7wiU?si=JEvLDlihcdZiHKoy

O que dizem as minhas sapatilhas

03.01.26

A História de Filipe Coelho: De Sedentário a corredor de provas sem destino - Parte 1 (Transcrição)


João Silva

Se procuras inspiração para sair do sedentarismo e mudar a tua vida através da corrida, a história do Filipe Coelho é para ti. Neste episódio do podcast Tira o Rabo do Sofá, conversei com alguém que, como tantos de nós, já enfrentou fases de excesso de peso, falta de motivação e vida sedentária.

Mas o que distingue o Filipe é simples: sempre que o corpo ou a mente tentaram desistir, ele respondeu com disciplina, coragem e a força da corrida.
Neste episódio, vais encontrar um testemunho honesto, cheio de momentos de superação, que mostra como a corrida pode transformar não só o corpo, mas também a mente e a vida.

👉 Se estás a dar os primeiros passos, ou se precisas de motivação para não desistir, esta conversa é um exemplo real de que é possível começar devagar e construir uma rotina saudável e consistente.

___________________

Primeira parte da transcrição completa do episódio que podes descobrir aqui:

[00:00] João: Conversas à espera de acontecer. Um podcast de João Silva. Aqui vamos falar de tudo, até de como tirar o rabo do sofá. Venham daí, pessoal. 

Mais à frente, neste episódio... Normalmente, como é que achas que se desbloqueia essa parte? Porque há muito essa questão da vergonha, que é uma coisa um bocado estranha. Estamos ali a fazer um movimento estranho com as mãos, com os braços, com os pés. Como é que achas que isso, na tua cabeça, como é que achas que isso se resolve?

[00:26] Filipe: Como é que se podia desbloquear a saída do sofá?

[00:29] João: Pensando naquilo que tu viveste para teres chegado àquele peso. Na altura.

[00:34] Filipe: É complicado. Sei lá, eu acho que para já nós temos que ter muita vontade. Se não tivermos vontade, não vale a pena. E era uma situação onde eu estava, eu tinha aquele peso, e era uma situação onde eu não queria estar. Ou seja, eu não queria de todo ter aquele peso, as coisas foram-se arrastando, vida académica também, e chegou-se a uma altura que esquece, vou começar a treinar, vou começar a fazer alguma coisa, porque continuar com este peso é impossível.

[01:11] João: Bem-vindos ao Conversas à Espera de Acontecer. Hoje temos um convidado, como eu digo sempre, especial, mas este é mesmo especial. E eu vou começar por falar com ele antes de ele se apresentar.

 Ia dizer fevereiro, mas é novembro de 2016. Diz-te alguma coisa?

[01:29] Filipe: Não, não diz.

[01:31] João: Mas isso é porque és esquecido ou...?

[01:33] Filipe: Também, bastante.

[01:34] João: Ok. Então, novembro de 2016, Trail da Ega e Facebook. Já te diz alguma coisa?

[01:41] Filipe: Ok, sim. Pico... Voltei a encontrar o pico.

[01:46] João: Ok.

[01:46] Filipe: Já não o via há bastantes anos, não é?

[01:48] João: Seguramente mais gordo na altura.

[01:52] Filipe: E eu mais magro.

[01:53] João: E tu mais magro, tu bem mais magro. E voltámos a reencontrar-nos, não é? Nós já somos amigos desde a escola, do ensino básico e por acaso aquilo serviu, foi bastante importante para mim na altura, foi do tipo, olha, também está aqui alguém muito conhecido, de quem eu gosto muito. Quer dizer que também corres? Antes mais, desculpa, diz-me o teu nome, apresenta-te devidamente.

[02:14] Filipe: Sou Filipe Coelho, sou de Coimbra e corro desde 2016 mais ou menos.

[02:21] João: Ok, 2016. Mais ou menos à mesma altura. Eu achava que tinhas começado um bocadinho antes de mim.

[02:25] Filipe: Poucos anos.

[02:26] João: Estavas lá há pouco tempo? Estavas nas corridas há pouco tempo?

[02:31] Filipe: Eu julgo que a minha primeira corrida terá sido em abril de 2016. Ok. Ok? No Trail 111 em Soure.

[02:38] João: Começaste logo por um trail? Ok. Aliás, isso é uma característica muito engraçada que tu tens, mas falaremos disso mais à frente. Tem a ver com a parte dos treinos e a parte das provas. Mas tu sempre foste muito dado a trails, foi sempre isso que te... Sim, sim. Ou seja, estrada fazes muito pouco.

[02:54] Filipe: Estrada... Costumo fazer, mas tenho o limite dos 10 km. Fiz uma vez uma meia-maratona, foi só uma vez.

[03:01] João: Qual foi? Já agora?

[03:02] Filipe: Foi a Eco, em Coimbra. Ok, uma boa prova.

[03:05] João: Vale a pena. E o que é que te leva a correr nos trails, sobretudo? O que é que na altura te chamou?

[03:11] Filipe: Sobretudo o contacto com a natureza e o desligar um bocado da vida da cidade. Depois toda aquela questão que está inerente à saúde.

[03:20] João: Ok.

[03:20] Filipe: Na altura comecei a correr, comecei a treinar, eu também tinha uns quilos a mais. Quantos? Era uns 100 quilos. Ok. E consegui regredir e passar para os 90.

[03:31] João: Só com a corrida?

[03:32] Filipe: Com a corrida e com o ginásio na altura.

[03:34] João: Ok. Sim, sim, ok. Na parte do desporto.

[03:37] Filipe: Exatamente. Sim, sim, sim. O ginásio foi uma coisa que, entretanto, fui deixando. Corrida vou... não é que eu seja assíduo em treinos e tal, mas vou fazendo provas. Vou me inscrever numa prova ou outra e vou a corridas.

[03:52] João: E naquela altura tu sentiste que a corrida ou o desporto, de uma maneira geral, era a mola certa para te fazer tirar o rabo do sofá?

[04:00] Filipe: Ah, sem dúvida. Mas na altura eu... Era quase uma necessidade que eu tinha. Eu estava tão habituado a praticar desporto, fosse ginásio, fosse corrida, que eu chegava a casa ao fim do dia e tinha que correr, precisava de correr.

[04:14] João: Eu lembro-me que na altura contaste-me isto. Isto é um pouco tramado, porque na verdade, como nós já sabemos tanto um do outro, é tramada esta parte. Mas eu lembro-me de teres comentado comigo, a dar da altura, que eu fazia ginásio, aqui em Condeixa, que eu já não vivo cá, Então, como é que fazes a mudança direta logo para as corridas? Começaste só a dedicar-te à parte da corrida?

[04:35] Filipe: Não, eu fazia bastante ginásio na altura e até que houve um dia que com a malta que frequentava o ginásio juntámos 5, 6 pessoas. Vamos fazer este treino, combinámos todos. Nunca tinha feito, nem me fazia ideia de como é que era.

[04:49] João: Não sentiste receio de te magoar? Ou isso nunca foi um problema?

[04:52] Filipe: Não, o único receio que eu tinha era, por exemplo, não conseguir fazer a prova, por exemplo, por causa da distância, eram 10 quilómetros, nunca tinha corrido tanto.

[04:59] João: É engraçado porque normalmente as pessoas... Lá está, o teu receio foi não conseguir de alguma maneira acabar... Foi não ter.

[05:06] Filipe: A capacidade para fazer aqueles quilómetros.

[05:07] João: Mas pela parte física? Ou por sentires que... Nunca tinha feito.

[05:11] Filipe: Nunca tinha corrido tanto.

[05:12] João: Ok. E não foi tanto pelo que pudeste sentir que as pessoas podiam dizer de ti? Ah, não. Isso não esteve na tua cabeça?

[05:19] Filipe: Não.

[05:20] João: Há muito esse estigma, sobretudo pensando sempre no nosso alvo que estará em casa neste momento no sofá a preparar-se para ir treinar, ou não, mas que estará numa vida sedentária. Normalmente, como é que achas que se desbloqueia essa parte? Porque há muito essa questão da vergonha, que é uma coisa um bocado estranha, estamos ali a fazer um movimento estranho com as mãos, com os pés, como é que achas que isso, na tua cabeça, como é que achas que isso se resolve?

[05:43] Filipe: Como é que se podia desbloquear a saída do sofá.

[05:46] João: Pensando naquilo que tu viveste para teres chegado àquele peso, na altura?

[05:52] Filipe: É complicado, sei lá. Eu acho que para já nós temos que ter muita vontade, ok? Porque se não tivermos vontade não vale a pena. E era uma situação onde eu estava, não é? Eu tinha aquele peso e era uma situação onde eu não queria estar. Ou seja, eu não queria de todo ter aquele peso. As coisas foram-se arrastando. Vida académica também. Chegou-se a uma altura que esquece, vou começar a treinar, vou começar a fazer alguma coisa porque continuar com este peso é impossível.

[06:22] João: Ajudou-te teres ali várias pessoas à tua volta que disseram assim, ok, agora vamos fazer este trail, vamos dar o desafio?

[06:29] Filipe: Sim, se bem que essa questão do trail já veio alguns meses depois de eu já andar no ginásio, ok? Não foi uma coisa que tivesse surgido logo de início.

[06:37] João: Ok.

[06:37] Filipe: Portanto, foi fácil convencerem-me a ir fazer o trail.

[06:40] João: Então apareceste logo lá com a camisola dos gatinhos assanhados?

[06:43] Filipe: Não, não.

[06:44] João: Desculpa, isso tinha que ser.

[06:47] Filipe: Uma t-shirt da Decathlon, penso.

[06:48] João: Ok.

[06:48] Filipe: Não me lembro ainda, não. Os gatinhos assanhados veio mais tarde. Aliás, a brincadeira começou aí.

[06:56] João: O quê? Juntaram-se vários gatinhos e...

[06:58] Filipe: Não, a malta do ginásio que nos desafiou para ir a Soure, se bem me lembro, eles antes tinham feito o Trail de gatões.

[07:04] João: Ok.

[07:05] Filipe: E gatões fizeram o nome de gatinhos assanhados e foi aí que surgiu o nome. E então, quando fomos a Soure, estávamos todos juntos para que continuássemos como gatinhos assanhados. E a coisa nasceu aí. Mais tarde fizemos t-shirts. Nunca foi uma equipa oficial, mas cobrimos com as t-shirts.

[07:20] João: Vocês tinham um símbolo que parecia os motorratos, na verdade.

[07:23] Filipe: Pareciam os diabos vermelhos.

[07:24] João: Pois é, era um bocado isso. Mas vocês não partiam pinheiros, nem nada do tipo?

[07:30] Filipe: Não, só umas cervejitas no final.

[07:35] João: Como é que conseguiste conciliar logo esta parte das cervejas com a parte da corrida? Parece que é um pouco um contrasenso, não é? Estamos aqui a vender a mensagem de que é importante ir fazer desporto, sair e tirar o rabo do sofá, para usar o lema do projeto. É possível conciliar essa parte de forma regrada? Estás a dizer que tens alguns serviços na cabeça?

[07:56] Filipe: Acabo por complementar aqui um pouco a parte social, claro.

[08:00] João: E achas que essa parte social em ti, isso fez-te querer ir a mais provas? Ou não teve tanto?

[08:07] Filipe: Também, sim. Assim, eu inscrevo-me numa prova, claro que a parte social vem sempre inerente. Porque gosto da prova, porque gosto do sítio, porque é um sítio que é uma novidade, agora bora, vamos lá experimentar, vamos correr, vamos ver como é que corre, vamos ver se vale a pena, se não vale. A parte social está sempre inerente, vem no final e já se sabe. Acaba-se a prova, sempre aquela parte do almoço, depois a malta vai ficando.

[08:33] João: E não se estraga no final aquilo que se fez no início?

[08:37] Filipe: Às vezes.

[08:37] João: Não vou ser mentiroso. Não, não, não é para mentir.

[08:41] Filipe: Já houve vezes que comeu bastante mal.

[08:42] João: Porque, na verdade, mas isso também é um certo luxo. Quando corres continuamente, podes dar-te ao luxo de te estragar, se for esse o termo, um bocadinho ali nas provas. Embora, se calhar, não seja bem isso que tu queres, ou o que desejas, mas também, retirando aqui um bocado o politicamente correto, é isso, não é? Porque tens toda uma parte social que te puxa. E eu, não sei, diz-me tu, o que é que achas das pessoas... Vamos falar sempre destas pessoas porque, de facto, é muito difícil para alguém que está num meio que não tem corredores, é muito difícil tu começares a impor, entre aspas, aquilo na tua rotina, na tua família. Como é que tu geres isso? Como é que tu, por exemplo, depois, quando ou antes, não sei, te juntaste com a Tânia, como é que isso foi integrado para que tu não perdesses esse lado das corridas, esse lado do desporto?

[09:31] Filipe: Sim, eu acho que quando temos vontade de correr que arranjas forma, não é? Há aquela malta que se levanta às 5 ou 6 da manhã ou há outra malta que já corre à noite para que isso também não entre em conflito com a vida familiar. Eu acho que há sempre forma de dar a volta. Basta ter a vontade.

[09:50] João: Acho que o principal é mesmo ter a vontade. Então quando alguém está a ver um short no YouTube ou qualquer coisa no YouTube e vê alguém ali trabalhado, não tem necessariamente a ver com o corpo todo esquelético e musculado. Achas que no fundo é possível qualquer pessoa chegar a uma vida saudável com a prática do desporto continuada? Achas que sim?

[10:11] Filipe: Acho que sim.

[10:13] João: Tu tens uma particularidade, que é algo que eu acho muito engraçado. Eu falei há pouco da questão dos trails, e quero incidir nisso, que é... Tu fazes, maioritariamente, trails pequenos, não é? Pequenos mesmo. Mas depois, houve ali uma altura, e é por isso, não querendo atalhar já o caminho, mas é por isso que isto está aqui, com quase certeza. Saíu-te na cabeça, ou na rifa, a ideia de fazer, do nada, um trail ou uma ultra, não é?

[10:40] Filipe: Exato.

[10:41] João: Foi a tua primeira?

[10:42] Filipe: Foi a primeira, sim.

[10:43] João: Ok. Então, conta por favor isso tudo com detalhe, mas detalhe desde uma ponta à outra, porque eu acho que isso é delicioso.

[10:49] Filipe: Isto é uma história, por acaso, é uma história engraçada. Nós, na equipa dos gatinhos assanhados, depois mais tarde acabou por ficar eu e uns colegas de trabalho, e nós em conversa, Ou seja, foi no ano em que houve aqui o Mundial de Trail.

[11:03] João: Exato. Logo assim.

[11:05] Filipe: Que foi organizado pelos Abutres, em Miranda do Corvo. E eles, ou seja, o Mundial era no sábado e no domingo tinham a prova aberta a atletas. Prova essa, em que só existia a distância dos 45 km. Ok. Nós já corríamos há uns anos, já estávamos mais ou menos à vontade com os treinos de 20, 25 km.

[11:24] João: Ok.

[11:25] Filipe: E no trabalho, picámo-nos uns aos outros e inscrevemo-nos. Para quem não conhece, esta prova funciona tipo sorteio, ou seja, a pessoa inscreve-se, mas não garante logo a sua inscrição. Mais tarde, estou lá no trabalho e recebo uma mensagem a dizer que tinha sido selecionado para a prova. Fui ter com o resto da malta a perguntar se eles estavam a gozar comigo. Pensei, vamos ver se estes gajos estão para aqui a mandar-me uma mensagem só para atrofiar, só para me chatear a cabeça. Conclusão, fui mesmo selecionado para a prova. Tinha coisa de três meses para treinar. Olha, paguei a prova e decidi arriscar.

[12:00] João: Ok, e treinaste ou passeaste lá?

[12:03] Filipe: Na altura sim, comecei a treinar, comecei a me inscrever em treinos longos. Passei a ir fazer 20, 25, passei para 30 e poucos. Tudo o que foi treinos que havia nas semanas antes, filos todos nos longos sempre, para me preparar. Cheguei inclusive a ir uma vez tentar fazer a prova a Miranda e vim para baixo a chorar que aquilo ficou super mal.

[12:25] João: Ok.

[12:25] Filipe: Ou seja, quem conhece a prova nós fartamo-nos de subir no início e eu cheguei ali a meio da subida e assim, berrou, saltou a corrente, volta para trás e vim a pé pela estrada. Vim completamente abatido porque achei que, olha, a prova é daqui a duas ou três semanas, eu não vou conseguir fazê-la. Pá, sei que naquela altura fui-me mesmo um bocado abaixo, mas olha, foi assim que foi. Estava inscrito, continuei a treinar e olha... Foi o dinheiro? O não está garantido. Não, olha, já estava inscrito. Andava a treinar. Pá, vou devagar, vou ver o que é que isto dá. Já não me esforce tanto, fui gerindo muito mais. Ele serviu-me quase como uma aprendizagem. Consegui acabar a prova.

[13:07] João: Ok. Não interessa para o caso, mas demoraste muito tempo?

[13:11] Filipe: Demorei bastante tempo, sim.

[13:13] João: Isso é sempre relativo.

[13:13] Filipe: Agora também não é preciso dizer, mas demorei umas sete horas e tal.

[13:17] João: Ok. 45 km, não é? Mas, seja como for, tu nos treinos trabalhaste sempre essa parte da resistência, de estar tantas horas seguidas no meio do mato, era esse o teu propósito?

[13:31] Filipe: É curioso, porque eu agora olho para as provas que fiz antes e acho que é uma parvoíce pegada àquilo que eu fiz, porque eu sei lá, eu antes dessa prova, 4 ou 5 domingos antes, eu inscrevi-me em todas as provas sempre a fazer 30 e tal quilómetros. Eu cheguei à prova e já devia ter um desgaste maluco nas pernas, mas naquela altura apareceu uma boa ideia e até foi por isso que me inscrevi.

[13:54] João: Espera, mas não é só naquela altura, porque depois há aqui um padrão também igual, agora há relativamente pouco tempo, Nós até nos cruzámos depois no trail de Cernache e nessa altura tu andavas com uma leva também para retomar o exercício que era praticamente todas as semanas, se não me engano, tu estavas ali alguns dias de fevereiro até abril, foste a quase todos os trails, mas aquilo funcionava para te motivar Achas que é isso que usas?

[14:19] Filipe: Sim, acaba por ser um complemento. Porque imagina, há certas alturas da minha vida profissional em que ou não estou tão aberto a treinos ou não tenho tempo nem disposição para isso. e eu começo a ver a balança, começo-me a ver ali a ganhar mais uns quilos, o que é que eu faço? Bem, olha, este mês todos os fins de semana vou inscrever-me numa prova. E acaba por servir de treino. É mais ou menos esta situação. Não é nenhum exemplo a seguir, atenção.

[14:44] João: Mas pronto, é o que eu uso. Não era tanto... Ah, e duas coisas que tu dizes. Aquela parte da balança, achas que isso funciona como a tua dieta yo-yo?

[14:53] Filipe: Acaba assim, acaba por funcionar. Se calhar num mês em que faço uma parvoíce dessas, perco ali se calhar dois quilos, por exemplo.

[14:59] João: Ok, é uma boa prática. Se quiserem experimentar, eu acho...

[15:03] Filipe: Não, acho que não vale a pena.

[15:05] João: Mas o que é que tu achas que isso te dá de ganho e de perda? O que é que achas que perdes para adotares esse sistema, uma vez que acabas por não ser constante? E o que é que achas que ganhas com ele? Pensando sempre que estamos a falar para alguém que não faz desporto, de uma maneira geral.

[15:20] Filipe: Ok. Sobretudo o ganho... O que é que eu ganho? O que é que eu ganho num treino? É a parte saudável, não é? E tem sempre aquela parte do desligar-me do trabalho, do desligar-me da vida de casa. Aquelas horas que eu estou ali a correr, eu estou só a pensar naquilo, com as minhas ideias, e é mais por causa disso.

[15:41] João: E tu que és um criativo, não achas que isso também ajuda? Aquele momento em que tu sais para correr, seja quanto tempo for, e dar asas ali à criatividade.

[15:49] Filipe: E a estar a produzir bastantes ideias também quando vou nos trailers.

[15:53] João: É engraçado porque a mim também me acontece isso, a treinar normalmente é quando as ideias fluem.

[15:57] Filipe: Exatamente, sim.

[15:59] João: Ou seja, na prática a corrida acaba por ser ali um bocadinho aquela...

[16:02] Filipe: É um escape.

[16:03] João: É mais do que a questão das provas, não é?

[16:06] Filipe: Ah, sim, sem dúvida.

[16:07] João: Essa parte aí, tu estás em algum grupo semanal? Ocasionalmente corres com alguém?

[16:14] Filipe: Agora eu tenho andado parado, mas juntava-me muito com os Night Runners em Coimbra, que no tratamento do grupo também acabou. Ok.

[16:22] João: E se puxava? Era muito para puxar uns para os outros?

[16:24] Filipe: Sim, porque eu já sabia que a quarta-feira à noite que era o dia de corrida e já, pronto, aquele dia estava já destinado para isso e fazíamos sempre 10 quilómetros, a um bom ritmo até. E pronto, eu sabia que naquele dia ia fazer aquilo, não havia mais nada, não havia volta a dar.

[16:41] João: Ok. Ou seja, tem a ver com compromisso.

[16:44] Filipe: Exatamente.

[16:44] João: Então, sentes que se tiveres, por exemplo, mais compromissos com isso da corrida, seja em grupos, seja no que for, que acabarás correndo mais vezes?

[16:50] Filipe: Exato.

[16:51] João: E achas que isso tem a ver com a companhia, com as companhias, com os colegas de equipa, da empresa?

[16:56] Filipe: Neste caso em específico, por exemplo, não, porque também não conhecia lá assim tanta gente. Ia porque era a forma de eu treinar, era a forma de eu sair de casa, eu sabia que aquele dia que ia fazer aquilo, ponto final. E sabia que chegava ali à Portagem e que ia encontrar um grupo de pessoas que também estavam ali para aquilo.

[17:12] João: E isso ajudou a criar motivação?

[17:14] Filipe: Exatamente, sim.

[17:14] João: Quando naqueles dias em que, naquelas quartas-feiras em que não te sentias tão bem.

[17:19] Filipe: Achas que isso... Ia na mesma.

[17:20] João: Ias na mesma.

[17:21] Filipe: Tinha essa motivação.

[17:22] João: Porque era quase como se faltasses, o que é que sentias? Se falhasses, se não fosses treinar com eles, o que é que tu sentias dentro daquilo?

[17:31] Filipe: Não sei, era... Ou seja, não há aqui nada que eu ficasse mais em baixo ou assim, não era por isso.

[17:37] João: Sim, eu não estou à espera que digas às pessoas que tu ias para casa chorar ou não ir, não é nesse sentido. Eu tinha esse compromisso e tentava, não...

[17:47] Filipe: Não falhar exatamente agora. Não me sentia mal se não fosse uma vez ou outra. Não me faz dizer isso.

[17:52] João: Então, agora que não tens isso, por exemplo, se tu e a Tânia forem correr, isso resulta? Ou achas que não é necessário? E puxar um pelo outro, não é?

[18:05] Filipe: Sim, sim, sim. Essa parte.

[18:06] João: Exatamente. E com a vida familiar, que tu falaste nisso há pouco, como é que se encaixa com um miúdo que tem as atividades da escola, que tem as coisas depois ao final do dia, como é que consegues encaixar ou como é?

[18:22] Filipe: Que se consegue... Cada vez é mais complicado fazer essa gestão. E sinceramente eu também não tenho treinado muito ultimamente, não tenho feito muita coisa, Ah, mas também não é porque eu não queira. Se quiser ir correr agora ao fim do dia, não tenho grande impedimento, por exemplo. Simplesmente para lá. Tenho andado assim. É o hábito. Não me apetece.

[18:46] João: Achas que é o hábito que leva depois a dizer não me apetece porque nos outros dias não treinei?

[18:52] Filipe: Porque já estás formatado para estar ali a arranjar desculpas, porque hoje vou buscar miúdo, porque amanhã tenho que ir não sei onde.

[19:00] João: Portanto, a base do trabalho aqui para alguém que tenha esse tipo de desculpas e que nunca tenha feito desporto será começar a ver as crenças que tem, não é?

[19:07] Filipe: As desculpas. Exatamente.

[19:09] João: Muitas das vezes.

[19:10] Filipe: Basicamente é isso que eu acabo por fazer e eu sei que são desculpas que eu arranjo.

[19:13] João: Mas não é o único, isso é algo que acontece com toda a gente.

[19:16] Filipe: No fim de jantar, arruma-se a casa, quer dizer, tenho ali umas duas, três horas que eu posso ir correr. Não vou porque é por culpa, desculpas.

[19:25] João: Ok. Portanto, tem a ver com a priorização, não é? Porque às vezes as pessoas dizem que há algo que confesso que, de vez em quando, mexe um pouco comigo, que é, epá, não tenho tempo. Ok, eu percebo que há vidas agitadas e é muito difícil encaixar isso tudo.

[19:38] Filipe: Mas o não ter tempo eu acho que acaba por ser relativo, quer dizer, tu não arranjas meia hora no teu dia para correr cinco quilómetros. Se quiseres arranjas, não é?

[19:46] João: Claro.

[19:46] Filipe: Portanto, eu essas desculpas eu também as dou e eu percebo isso agora. Eu também cheguei à conclusão que aquilo que eu estou a fazer comigo é arranjar desculpas para mim mesmo.

[19:54] João: Eu acho que o importante da tua mensagem é precisamente isso, é admitirmos, porque eu, apesar de eu normalmente não falhar tanto na questão dos treinos, porque criei esse hábito, aqui a diferença é só mesmo essa, é que eu criei o hábito de ir correr sempre. E tu criaste atualmente o hábito de já não ir correr tanto. E, portanto, a mim, quando o despertador chega às 6h20 eu salto da cama, aquilo já tem molas, é automático. Portanto, tem a ver com isso. Mas aliás, para ter sido obeso também tive que chegar ao ponto em que tinha as desculpas todas, não é? Não dá, o trabalho não deixa, os.

[20:29] Filipe: Turnos... Sim, sobretudo isso. Eu acho que acabamos por nos limitar e arranjar desculpas. Ou para não ir treinar, ou para não ir correr, ou para não ir fazer uma caminhada.

[20:39] João: No caso, aqui voltando à parte das provas, sobretudo, Eu acho que se calhar, eu aqui concordo um pouco contigo, que alguém que se meta no caminho a fazer só provas, que ainda não tenha treinado, se calhar vai passar um bocado mal numa primeira fase, porque se aquilo corre mal, a tua tendência é desapareceres ali e já não voltas. Achas que ali também a parte financeira tem um peso? Ou seja, Se tu fores para provas, isso tem um impacto muito grande na tua carteira, no teu orçamento, só para provas?

[21:06] Filipe: Sim, cada vez mais, porque as provas têm aumentado bastante o valor. Tu pensas que se calhar um mini-trail fica-te na ordem dos 15€, mais ou menos. Estamos a falar aqui 60€ por mês, se quiseres fazer todos os domingos.

[21:22] João: Então, só numa ótica de transformação, se calhar por metade desse valor, consegues um treinador para correr, por exemplo?

[21:28] Filipe: Por exemplo. Quem gostar desse tipo de abordagem, não é?

[21:32] João: Sim, sim, claro. O que eu estou a querer dizer é que tens as duas possibilidades, não é?

[21:35] Filipe: Exato.

[21:35] João: A parte dos 30€ para o treinador, tu depois não vais fazer provas. Está aqui esta questão, dificilmente... Pá, e.

[21:42] Filipe: Tens a questão da prova, não é só a prova, é tudo o que há, é o convívio, é o almoço, temos sempre, oferecem t-shirts, oferecem, sei lá...

[21:51] João: Isto em estrada é um bocado diferente.

[21:53] Filipe: Pronto.

[21:54] João: A estrada é uma coisa muito... Entre a.

[21:55] Filipe: Em estrada ainda vou fazer bastantes coisas.

[21:56] João: E tu tiveste... Depois já falamos aqui dos teus amuletos, mas uma parte está relacionada com isto, com os diabinhos de Samuel que são a tua equipa atual, não é?

[22:06] Filipe: Exatamente.

[22:06] João: Ou seja, vocês também têm um trail e quando vocês estavam na parte da organização, em termos de trail de uma maneira geral, Quando vocês organizam o trail, vocês pensam em quem não corre ou ele é feito maioritariamente em quem já tem prática na corrida? Quero eu, no fundo, explicando melhor, perguntar se vocês procuram ser convidativos do género? Venham conhecer a terra, venham conhecer o trail. É nesse sentido ou os trilhos são nesse sentido?

[22:36] Filipe: É sim, nós temos trilhos para quem já corre, para quem tem alguma experiência, mas tentamos sempre ter aquela parte da caminhada, que são mais estradões, trilhos mais abertos, para a malta que queira vir desfrutar, para ver para o pessoal que está a iniciar, para nos poder visitar. Tanto é que as nossas inscrições da caminhada nós conseguimos ter sempre à volta 450 pessoas, mais ou menos. É algo muito grande que nós temos a fazer.

[23:05] João: Vocês fazem muito trabalho de marketing nesse sentido de promover aquilo como algo fácil e acessível a qualquer pessoa ou é natural?

[23:15] Filipe: Não, levamos sempre a comunicação para o mundo do trail e a nossa base é essa. É trail puro e duro. Nós temos depois a outra componente para quem nos quiser visitar, para quem quiser fazer uma caminhadazinha, uma coisa soft, para nos visitar também. Agora, a nível de comunicação, não vamos comunicar que temos uma caminhada e que aquilo é perto de lá.

[23:39] João: Não, era tanto nesse sentido.

[23:40] Filipe: O foco é mesmo no trail.

[23:42] João: Sim, é mais no sentido de quando fazes a promoção de, ok, nós estamos recetivos, nós também vos queremos receber, não é pelo facto de não praticares que for com regularidade porque não podes entrar aqui. Até porque eu não sei como é que é no vosso trail, mas em muitos trails, e naquele onde eu fui na Ega também era assim, fui para lá, obeso, eu tinha 118 kg na altura e ninguém me barrou a entrada.

[24:03] Filipe: Portanto... Toda a gente é bem-vinda no nosso trail.

[24:06] João: E eu, por acaso, até me lembro que durante a prova estava a pensar em farangueçado. Era o meu pensamento para conseguir superar aquilo. Mas acho que isso pode ser uma boa forma de chamar pessoas para outro desporto, não achas? Em vez de irem logo para a parte da corrida.

[24:21] Filipe: Sim, e há muita gente que acaba por se iniciar nas caminhadas. Vão à primeira caminhada, fazem tudo a caminhar, chegam cansados, mas até gostaram daquilo, no fim de semana seguinte vão a outra, já tentam correr, e vão ver que dali a 6, 7 provas já entram nos trails. Muita gente se inicia assim.

[24:39] João: Sim, 6, 7 semanas, se forem seguidos, vai ser assim.

[24:43] Filipe: Há muitas pessoas que acabam por se iniciar assim.

[24:46] João: E tu achas, eu sei que tu não fizeste isso, portanto aqui está a diferença entre aquilo que tu fizeste e provavelmente aquilo que tu vais dizer, mas achas que é possível manter a paciência para elevares as coisas encarreiradas e não te lesionares? Ou nunca tiveste nenhuma lesão por...

(Continua noutro post)