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O que não mata, engorda e transforma-te num maratonista

Em 2016 era obeso, hoje sou maratonista (6 oficiais e quase 20 meias-maratonas). A viagem segue agora com muita dedicação, meditação, foco e crença na partilha das histórias e do conhecimeto na corrida.

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06
Abr19

Pele e osso e quase sem pescoço


João Silva

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A minha esposa diz muitas vezes que eu vou do oito ao oitenta com uma facilidde estonteante.

Confesso que não gosto de ouvir isso, mas, parando para refletir, tenho de reconhecer que ela tem muitas vezes razão.

É um processo de aprendizagem e assumo que o caminho ainda é longo. Há quem diga que se faz caminhando, mas, no meu caso, faz-se correndo, portanto, deverei chegar lá mais depressa.

Como deixei antever no vídeo do último post, fiz adaptações alimentares e adotei algumas restrições. Contudo, caí de tal forma no exagero que passei a barreira aceitável (mesmo segundo a minha médica de família, altura e peso mais ou menos aproximados, ou seja na ordem dos 74 kg) e quis ir mais longe. 

Tão longe que cheguei quase a um ponto sem retorno.

À imagem do que referi no vídeo, a corrida potenciou e acelerou a perda de peso e, como a adrenalina, a dopamina e a serotonina atingiram os píncaros no meu corpo, deixei-me me ir.

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Comecei a achar que nunca estava suficientemente magro, que era preciso perder mais uns kg. Depois, para piorar as coisas, comecei a levar ao extremo a ideia de razia durante a semana para poder "prevaricar" ao fim de semana.

Nada mais errado. Cheguei a uma altura em que só comia caldo verde (só faço com couve, courgete e batata) de segunda a sexta. Ou seja, o corpo "comeu-me" por dentro, precisava da gordura que eu tinha para se manter ligado. O que não percebi em todo o processo foi que isso ajudou a potenciar o catabolismo do meu organismo. 

A massa muscular não se formava porque não havia "matéria-prima" e nem sequer regenerava atempadamente, tendo em conta que treinava e treino seis vezes por semana.

As dores, a sensação de falência, a iminência de desmaios, as tonturas ao levantar, a extrema facilidade em ficar hipotérmico, tudo isto é literalmente avassalador.

É verdade que cheguei aos 60 kg, nunca pensei que tal pudesse acontecer, mas tinha demasiados ossos, muito pouco músculo e um organismo nada funcional. O cérebro, ele próprio um músculo, parecia mirrado. Não conseguia formular uma frase simples em condições, ficava rapidamente zonzo. 

O mais grave em todo o processo foi que continuei a achar que era possível existir assim, que estava bem. Comia alguma coisa que achava "pecaminosa" e tratava de forçar a sua extração de seguida. Pesava-me todas as semanas e bastava aumentar 100 g para ficar possuído. Outra das alterações que notei no meu cérebro foi o meu humor. Sempre carrancudo e "doente". Tudo me irritava. Não tinha energia nem para mexer um braço.

E, em alguns aspetos da minha vida, sofri as consequências disso. Paguei caro por ter sido teimoso, por ter ficado "cego" em perseguir um objetivo que não era sustentável (para usar um termo muito atual). Nem o facto de a minha esposa me alertar para a espiral negativa em que me encontrava fez soar os alarmes na minha cabeça.

Quando se chega ao fundo e não dá para ir mais, começamos a vir à tona. Graças a um consumo destravado de granola caseira feita por mim e a uma ingestão desenfreada de frutos secos em fevereiro de 2018, uma altura em que me sentia mal comigo e em que perdi alguma alegria com tudo o que estava a fazer para correr, consegui reverter o processo. 

Apesar de tudo, o bom nessa fase foi não ter parado a atividade desportiva regular.

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O importante em todo o processo é manter o equilíbrio. Hoje tenho 74 kg, durante muito tempo, tive dificuldades em aceitar isso, mas percebi (também graças à balança e à minha querida esposa) que tinha ganho muita massa muscular. Sendo totalmente sincero, estou 3 a 4 kg acima do que pretendo para ter um melhor desempenho nas provas, mas sinto-me muito mais funcional, consigo "existir" e pensar em condições.

Às minhas custas, percebi que podia comer o que quisesse quando quisesse e que o importante era manter o equilíbrio. Hábitos alimentares regulares e estruturados ajudam a eliminar o que quer que seja. Agora já não vou atrás da perda desenfreada de peso. É gradual, porque se trata de uma forma de vida e nada acontece de um dia para o outro. 

Existem sempre contratempos, passei por um há algumas semanas, mas é necessário manter a calma.

Consegui compreender que não andamos nesta vida só um dia (em princípio) e que amanhã estaremos cá novamente (se tudo correr bem), pelo que o fundamental é dosear e relativizar tudo o que nos acontece.

Muitas vezes não é fácil gerir isso, por exemplo, em conciliação com as nossas expetativas pessoais, familiares, profissionais e desportivas, mas, uma vez mais, trata-se de uma aprendizagem.

Uma coisa é certa, mesmo que tenha de ter uns kg a mais (ou de estar dentro do "meu normal"), não quero voltar a passar por noites horríveis sem dormir, em que acordava às 02 e 03 horas da manhã cheio de fome e ia treinar, destruindo o meu corpo. É uma sensação de impotência, de descontrolo e cansaço absolutamente indiscritível e prejudicial.

Sem querer parecer arrogante, hoje tenho um peso mais equilibrado e consigo olhar-me melhor ao espelho, vejo massa muscular, vejo também alguma massa gorda em algumas zonas do corpo, mas vejo-me como uma pessoa com bom aspeto, "apresentável à vista". A minha mulher acha que sim e isso deixa-me feliz.

Ainda olho todos os dias para a minha barriga, para ver se aumentou ou não e, por vezes, chega a ser doentio. Que o diga a minha cara-metade, mas, caramba, aprendi a distinguir o volume que se ganha com a ingestão alimentar (em particular de alguns alimentos) da gordura que se acumula com o tempo, não aparece da noite para o dia.

Este é um assunto que dá pano para mangas, mas considero essencial partilhar este testemunho convosco, porque, apesar de o emagrecimento ter sido uma aventura fantástica até agora, houve um lado negro que me custou algumas coisas essenciais a título pessoal.

Conhecem alguém que tenha passado por algo semelhante, em que, a dada altura, sentisse que estava sozinha contra o mundo que lhe gritava que estava bem? E como acham que lidariam com um cenrário deste género? Qual é a melhor forma de ajudar uma pessoa numa situação destas?

 

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06
Abr19

O "segredo" está no dossier...


João Silva

Estão a ver os diários à moda antiga?

E aquelas pessoas que escrevinham tudo o que fazem, o que querem fazer e que acumulam a informação por considerarem que se trata de um bem precioso?

Pois bem, fui apanhado! 

Sou mesmo assim.

Apesar do aparente desperdício de papel, o que é de lamentar, sinto uma necessidade febril de ter suporte físico de tudo o que faço e que avalio como relevante.

Lembro-me de fazer planos de estudo detalhados com horas e dias durante a minha adolescência.

É uma das minhas imagens de marca. No fundo, trata-se de um registo da minha vida, como se fosse uma prova da minha existência para quando não estiver presente.

Com efeito, é dessa forma que trato meu belo dossier cinzento, um "pedaço de matéria" que a minha esposa me deu por já não utilizar.

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Tudo serve!

E o que contém este dossier "secreto", conseguem adivinhar?

Ora vamos lá deixar aqui umas pistas antes de "abrir a caixa de Pandora":

 

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Pois é isso mesmo! Este "pequeno" calhamaço é a minha Bíblia. 

Juntei toda a informação que pude de tipologias de treino, de características de calçado, de possíveis exercícios de reforço muscular para corredores, de exercícios de ioga, de alongamentos, de inscrições em provas e de diplomas de participação.

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Além disso, criei também a minha própria informação.

A saber: defini planos dirários de trabalho de reforço muscular. É tão ou mais importante do que o próprio treino de corrida.

Passei a registar cada treino ao pormenor: trajeto, tipo de problemas que sinto e características do treino de corrida e de força, duração, calorias estimadas pela aplicação e data da realização dos treinos.

Como este último volume de informação é muito permutável, optei por não imprimir. Tenho-o sempre atualizado nos meus suportes digitais. 

Screenshot 2019-04-05 17.20.39.png

Screenshot 2019-04-05 17.21.42.png

É uma espécie de tarefa diária adicional ao exercício físico.

É a "caixa" do João.

E a informação é um bem tão precioso...

O que vos parece? Também fazem registo dos vossos treinos? E têm por hábito apontar eventuais lesões que surjam?

Digam de vossa justiça...

 

06
Abr19

Bati no fundo e depois tive de me levantar


João Silva

Bati no fundo!

Cheguei a buraco do qual já não conseguia sair.

Foi preciso mexer uns valentes cordelinhos na minha cabeça para reverter a situação.

Uma vez mais, tive de recorrer ao apoio incondicional da minha mulher. Não é algo que me "atormente", muito pelo contrário. É a grande companheira da minha vida. É o sentido de tudo isto.

Numa fase em que os problemas familiares se amontoaram, foi também importante ter contado com auxílio psicológico externo para poder deixar sair da jaula o "cavalo de corrida" que tinha escondido.

Sempre adorei desporto, mas nem sequer sabia que gostava tanto de correr de forma constante.

Mais importante do que isso tudo foram as mudanças nos meus hábitos alimentares, que, antes desta fase, eram péssimos. O mais curioso? Tanto eu como a minha esposa cozinhamos bem, adoramos perder tempo na cozinha a fazer magia e somos pessoas inteligentes. Mas passámos por um emprego (num hipermercado) e por uma letargia que nos roubaram a clarividência.

Precisamente por isso, a queda foi-se consumando ao longo dos anos. E antes dos 30 já era um obeso a caminhar para o antro de doenças cardiovasculares. Esse cenário também me assustou, mas o lado bom de bater no fundo é que, a partir daí, é sempre a subir.

O vídeo que se segue ajudar-vos-á a perceber tudo aquilo por que passei.

Conto com reações vossas à "narrativa":

 

 

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