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O que não mata, engorda e transforma-te num maratonista

De novembro de 2016 até agora, passei de 118 kg a 66 kg graças à corrida e à reeducação alimentar. Desde então, o contador vai em 40 provas: 20 x 10 km, 7 trails, 10 meias maratonas e 3 maratonas.

De novembro de 2016 até agora, passei de 118 kg a 66 kg graças à corrida e à reeducação alimentar. Desde então, o contador vai em 40 provas: 20 x 10 km, 7 trails, 10 meias maratonas e 3 maratonas.

O que não mata, engorda e transforma-te num maratonista

04
Fev20

1, 2, 3, uma entrevista de cada vez


João Silva

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Foto: o João no final da primeira prova (Mini da Ponte 2006)

Em mais um "episódio" de entrevistas a atletas que, de alguma forma, me marcaram neste percurso, trago-vos o João Lima, que, desde logo, podem conhecer melhor e de forma mais continuada aqui: http://joaolimanet.blogspot.com .

Conheci o João por mero acaso. Primeiro, encontrei o seu blogue quando ainda estava a dar os primeiros passos neste canto do Sapo. Fiquei surpreendido pelo trabalho exaustivo, chegando ao ponto de apresentar uma calendarização de provas a nível nacional. Só uma pessoa com um nível elevado de paixão consegue e se predispõe a fazer tal coisa.

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Foto: a comandar um grupo de atletas em Constância 2011 no percurso que mais aprecia para provas de 10 km

Depois disso, uma vez mais acidentalmente, encontrámo-nos pessoalmente na maratona de Aveiro. Numa daquelas idas nervosas ao Wc antes da prova, sinto um toque nas costas e lá tivemos o primeiro momento de troca de ideias. Como já sabia do blogue, o João é uma boa pessoa de verdade.

Assim é de facto, que não se coibiu de me incentivar quando nos cruzamos em plena cruzada de 42 km.

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Foto: no final da primeira Maratona com o extenso e incansável grupo que o apoiou durante a prova!

Meses mais tarde, na meia maratona de Leiria (outubro), outra vez de forma acidental, acabámos por conversar muito mais tempo, por trocar medos e expetativas para a maratona do Porto (em novembro) e ainda tive o privilégio de aquecer com o João. 

No dia da maratona, já com este pedido de entrevista feito, sem contar com isso, lá dei de caras com o João. Mais um motivo para umas belas fotos de recordação e para tentar, sem sucesso, que deixasse o nervoso miudinho que o "assombrava".

E, no fundo, antes de passar a palavra ao João, diria que o que mais aprecio na sua personalidade é a enorme paixão pela corrida, a sua bondade e generosidade na hora da partilha e de transmitir conhecimentos aos mais novos e, como se não bastasse, o respeito (e nervos) que tem perante cada prova. E estamos a falar de um "veterano" nas maratonas.

Fiquem, pois, com o João Lima:

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Foto: a sua fotografia preferida! Sevilha 2014 (ler “aventura marcante”). Só ele sabe o que estava a passar de felicidade nesse momento

  • Nome 

João Lima 

  • Idade

59, a menos de 4 meses de mudar para o escalão M60 e natural de Tomar 

  • Equipa 

4 ao km, uma equipa de amigos 

  • Praticante de atletismo desde

Em Junho de 2005 comecei a dar umas corridinhas no Passeio Marítimo de Oeiras. A primeira vez, fiz 1800 metros e julguei que o coração e pulmões saltavam boca fora. No dia que cheguei aos 3 km foi uma alegria. Depois andei muito tempo com 4,6 km (era na altura ida e volta no referido passeio onde corria de 3 em 3 dias). No final do ano, vi numa publicação da Câmara de Oeiras uma notícia sobre a Corrida do Tejo. Pensei que seria giro participar mas tinha uma muito longa distância de 10 km! Idealizei que se todos os meses fosse subindo uns 500 a mil metros, conseguiria chegar lá. Mas no início de 2006 um colega mostrou-me um folheto para a Mini da Ponte com 7 km. Entusiasmei-me com a hipótese de passar a ponte a correr e inscrevi-me. Quando disse que ia à Ponte, um outro colega perguntou-me se ia à Meia ou Mini. Respondi, convicto, “Mini! Meia não faço nem nunca farei!” Efetivamente, na altura os 10 pareciam-me o máximo dos máximos e já seriam uma coisa brutal. Na feira da prova, recebi um folheto para a Corrida da APAV a disputar passadas 2 semanas. Inscrevi-me e quando dei por mim, estava bem dentro das corridas, tendo neste momento participado em 463, das quais 13 Maratonas e 65 Meia-maratonas (estreei-me na Meia da Ponte, exatamente um ano após julgar que nunca faria uma distância dessas…). 

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Foto: com a nossa bandeira a cortar a meta na Maratona que sempre sonhou um dia realizar, Paris 2015

Além da corrida, mantenho uma base de dados de resultados de provas portuguesas, bem como o (extenso) calendário anual. Esse trabalho é algo que faço há 10 anos e nasceu da necessidade de preservar os resultados, verdadeiro património das nossas corridas, pois de ano para ano a esmagadora maioria das classificações perdia-se. Assim, guardando-as no meu servidor, ficam disponíveis 24 horas por dia, 365 dias ao ano ao sabor dum simples clique. Neste momento estou quase nas 10 mil classificações, algumas bem antigas como a da primeira Maratona realizada em Portugal, a única ainda em monarquia (2 de Maio de 1910). 

  • Modalidade de atletismo preferida

Corrida em estrada 

  • Prefere curtas ou longas distâncias

De 10 km para cima, com especial gosto em Meia-Maratona e uma paixão arrebatadora na Maratona 

  • Na atual equipa desde

A sua criação, agosto de 2011. Fui um dos 4 fundadores e sou o seu responsável. Por sermos 4, ficou o nome de 4 ao Km, que não tem a ver com velocidade mas que gera algumas situações caricatas em provas, com pessoal que ainda não conhece a equipa dizendo “isso não é a 4 ao Km” ao que costumo responder por piada coisas como “é sim, é a 4.90 ao km (se vou por exemplo a 5.30)” ou “é mais IVA”. Aliás, na única edição da Corrida Nauticampo no Parque das Nações (2012), passei por 3 raparigas que, ao terem dito que não ia a 4 ao km e eu tendo respondido que era com IVA, uma disse “Não, não! Aqui não há IVA!”. Ora estávamos em pleno período da troika, fiquei muito sério e respondi “Estão a dizer para fugir aos impostos?!? Olhem que é por causa disso que o país está como está!”. Bom… elas ficaram espantadas a olhar para mim como quem pensa que eu estaria mesmo a falar a sério. Aí ri--me, desejei-lhes boa prova e prossegui. 

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Foto: com os bons amigos Sandra, Nuno e João Branco, Corrida do Tejo 2015. A corrida deu-lhe grandes amigos

  • Volume de treinos por semana

Treino 5 vezes por semana. Em relação à quilometragem, vai variando conforme as semanas, mas no final de cada mês dá normalmente entre 210 a 220 km, mais em período de preparação para Maratona, sendo a maior quilometragem já registada de 276 km neste Agosto. Irei terminar o corrente ano na casa dos 2500 km. 

  • Importância dos treinos

Fundamental!!! A forma é a coisa mais ingrata que existe. Batalha-se, batalha-se e basta um pequeno tempo sem treinar e ela eclipsa-se. Há quem possa estar uns dias sem correr que não nota nada de especial, no meu caso é muito penalizador para a forma. Tudo o que se consegue numa corrida, tem por trás o que se foi fazendo nos treinos e a inteligência como se treinou. 

  • Se tem ou não treinador

Nunca tive. Fui aprendendo com o que via, lia e ouvia de outros atletas e treinadores. Ao fim de um certo tempo, aprendi a ler o meu corpo e suas sensações e, baseado nisso, crio os meus próprios planos de treino. Não me tenho dado mal, antes pelo contrário. Se poderia ser melhor com treinador? Hum…provavelmente sim. Mas assim, quando alcanço um objectivo, venço por duas vezes, como atleta e como auto-treinador… 

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Foto: Sevilha 2017 e a felicidade por bater o seu recorde em Maratona (que se mantém)

  • Diferenças existentes entre o atletismo passado e atual

Em comparação quando comecei a participar em corridas (2006), assiste-se a um positivo crescimento de tecnologia que vem ajudar em vários aspetos, como maior rigor nas tomadas de tempo, com generalização de chips que há 13 anos não estavam assim tão espalhados como hoje, maior divulgação aproveitando a Internet e diversas plataformas digitais e uma expansão e maior profissionalização de diversas entidades organizadoras. Durante este período deu-se também uma revolução com a criação do conceito trail, na altura apenas existiam corridas de montanha com certas diferenças para este tipo de provas, algo que tem aumentado a oferta de forma impressionante. Outra grande diferença é que os portugueses perderam o medo à distância e temos cada vez mais maratonistas. Mas a que considero a maior e mais saudável diferença, tem a ver com a participação feminina. Quando me iniciei, a percentagem de atletas femininas situava-se entre os 3 e os 6%, enquanto actualmente na maioria das provas anda pelos 20%, ainda longe das médias de alguns países mas a aumentar.  

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Foto: a cortar a meta em Valência 2018, uma Maratona impressionante e cujo entusiasmante final é de colocar qualquer um louco de alegria, como se constata!

  • Histórias insólitas, curiosas ou inéditas

Algumas. Desde uma senhora de idade a insultar os atletas gritando que as corridas eram uma merda, ao que gritei “desporto é saúde” e a senhora querer vir atrás de mim para me bater com a sua bengala, a estar a treinar numas férias que por acaso eram um dia de greve e um carro aproximou-se abrindo o vidro (o que sucede algumas vezes para pedir alguma indicação de rua) mas quando me aproximei, o senhor (que provavelmente estava danado por vir de alguma repartição fechada) gritou em fúria “grevista de merda!” e arrancou (esquecendo-se que além de poder efetivamente estar em greve, poderia estar de férias, desempregado, trabalhar por turnos ou horário diferenciado, etc), a engasgar-me numa corrida por engolir uma mosca ou então por falha da organização, fazer 23 km numa Meia, ao que a minha mulher apelidou “duma meia até aos joelhos”! 

  • Aventura marcante 

Sevilha 2014! Tenho muitas provas que foram especiais mas nada como esta. Tenho 13 Maratonas concluídas mas parti em 14. Na que teria sido a minha 2ª, a Cascais-Lisboa 2013, fui forçado a desistir aos 15,5 por um problema físico completamente impeditivo de continuar, o que foi uma experiência muito dura. Seguiu-se Sevilha 2014 mas 5 semanas antes apanhei uma infeção pulmonar que me obrigou a parar. E se em Maratona é necessária muita resistência, não esquecer que ela vem dos pulmões. Recomecei a treinar mas fraco. Duas semanas antes tentei 24 km mas andei mais do que consegui correr. Basicamente, não tinha força mas não estava preparado para ter um novo DNF. A semana anterior foi terrível com a inevitável sombra da desistência. Mas ia tentar. Mais valia desistir por ser impossível continuar do que nem sequer tentar. Ficou na memória de todos como estava no pequeno almoço no dia da prova, isto para já nem falar do que a minha mulher teve de aturar nessa noite. Sentia-me impotente para evitar o que seria para mim outra dura derrota. Mas…na altura de ir deixar o fato de treino no carro, e ao sentir o ar frio, algo mudou em mim. Mudei do estado de derrotado para um outro que nem sei definir. Conclusão, fiz a que considero a corrida da minha vida e ao mesmo tempo a mais feliz, divertida e emocional. Costumo dizer por brincadeira que devo ter sido tocado por alguma fada das corridas por mais pareceu magia. Mas a magia veio toda do meu desejo de completar o desafio. E nesse dia, com 2 Maratonas no currículo, sinto que ganhei carreira de maratonista pois se tivesse desistido pela 2.ª vez em 3 tentativas, não sei se teria continuado a tentar a distância, eu que era para ter feito apenas uma. E o que teria perdido!     

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Foto: com os grandes amigos Isa e Vitor na Corrida do Bodo 2019, a brincar antes da prova com a placa que faz alusão ao nome da nossa equipa

  • Participação em prova mais longa

Por 13 vezes em Maratona. Lisboa 2012, Sevilha e Porto 2014, Paris e Cascais-Lisboa 2015, Barcelona e Porto 2016, Sevilha e Porto 2017, Valência 2018, Sevilha, Aveiro e Porto 2019   

  • Objetivos pessoais futuros

Continuar sempre a correr com o mesmo prazer que tenho desde o início. Em termos de provas, os grandes objectivos são em Maratona, tendo planeado em 2020 Madrid e Málaga, 2021 Aveiro e Loch Ness e tentar o sorteio para Berlim 2022. Isto para já. Em termos meramente utópicos, gostava de fazer uma Maratona aos 100!! 

  • Como vê o atletismo daqui a 5 anos

Basicamente semelhante, mas gostava que houvesse um maior controlo para evitar os batoteiros. De realçar a recente medida da RunPorto ao desclassificar e publicar a lista dos “corta-caminhos” e das “mulheres com barba” na Maratona do Porto, avisando que no futuro irá começar a impedir a participação de atletas que sejam apanhados nas mesmas condições. Espero que seja um primeiro passo a ser seguido por mais organizações   

  • Como se vê no atletismo daqui a 5 anos 

A mudar para o escalão M65, forçosamente (ainda) mais lento, mas sempre com o mesmo prazer de corrida. Assim haja saúde!  

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Foto: Porto 2019, uma Maratona tão sofrida mas com uma enorme felicidade na meta por ter resistido

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