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O que não mata, engorda e transforma-te num maratonista

Em 2016 era obeso, hoje sou maratonista (6 oficiais e quase 20 meias-maratonas). A viagem segue agora com muita dedicação, meditação, foco e crença na partilha das histórias e do conhecimeto na corrida.

Em 2016 era obeso, hoje sou maratonista (6 oficiais e quase 20 meias-maratonas). A viagem segue agora com muita dedicação, meditação, foco e crença na partilha das histórias e do conhecimeto na corrida.

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Dez19

1, 2, 3, uma entrevista de cada vez


João Silva

Mesmo mesmo a chegar ao natal, quero trazer-vos a história de alguém muito especial que já conhecia antes de começar a correr mas com quem só travei amizade nessa altura.

Hoje falo-vos do meu muito estimado Ricardo Veiga, "camarada" de corridas e que, na verdade, já tinha sido meu chefe num anterior emprego. As voltas que a vida dá.

Para este caso, não interessa o cruzamento prévio dos nossos caminhos. Além de uma pessoa que muito estimo, o Ricardo tem uma história que merece ser contada, que vai quebrar muitos tabus relacionados com doenças psicológicas e com o sexo masculino.

Também pela importância desta mensagem, decidi presenteá-lo e presentear-vos com esta verdadeira inspiração para quem quer que se encontre à beira do abismo como ele esteve. A corrida ajudou-o e fez com que ele se ajudasse a si próprio.

Por isso, parti esta exposição em dois dias e quero divulgá-la nesta época natalícia, precisamente para mostrar que nunca é tarde para renascer e que, além disso, o desporto, e em especial a corrida, são o motor certo para desencadear e reforçar essa mudança.

Espero que vos toque tanto quanto me tocou a mim.

Aqui vos deixo a primeira parte da vida do Ricardo.

 

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  • Nome

Ricardo Veiga

  • Idade

 42

  • Equipa

Sempre

  • Praticante de atletismo desde

Desde 2.º semestre de 2017, início de 2018. Coisa curta mas longa história...
Abreviar não será fácil mas cá vai disto, se conseguir alcançar alguém com o mesmo tipo de percurso, valerá a confissão, sei que muitos dos actuais corredores começaram a correr para fugir a algo e nem sempre à polícia:
Comecei a correr quando me vi num estado crítico de depressão. Tão crítico que, embora não planeasse ainda medidas mais severas de autodestruição, a ideia já nem me parecia tão absurda. Estava realmente doente e, um dia, ao assistir online a uma palestra onde alguém falava exactamente o que sentia, eu percebi como estava.
Não procurei ajuda mas tentei lentamente levantar-me. Demasiado teimoso mas, ao mesmo tempo, capaz de perceber que iria dar trabalho mas que iria conseguir.
O contexto, contudo, não era o mais favorável: desempregado, quase sem dinheiro, sem perspectivas, furioso com tudo, revoltado com o mundo, numa relação em que já nada funcionava e emocionalmente longe da família mais próxima. Na minha cabeça sobravam alguns amigos com quem (quase) tinha coragem para partilhar qualquer coisa. Passava os dias no escuro, ora insensível a tudo ora a chorar cheio de pena de mim próprio, o pior dos sentimentos.

Então tracei um pequeno plano: "necessito de estar vivo todos os dias, nem que seja por umas poucas horas, vou acordar de madrugada em todos eles e vou sair à rua para andar ou correr, necessito de me mexer, necessito de algo onde não tenha amarras, onde ninguém me diga que não, onde possa ganhar todos os dias nem que seja uma ilusão que me dure um par de horas. Depois sim, volto ao escuro, deito-me e durmo. Amanhã repito."
E assim foi. Deixei de fumar de um dia para o outro, vício de 25 anos, e cortei a bebida mas continuei asmático.

Ora toda esta nova rotina foi meio caminho andado para me livrar da namorada que já não me aturava como eu não a aturava a ela, deixámos praticamente de nos ver: eu a viver de madrugada e a desligar à uma da tarde depois de sair e correr, comprar e fazer pequeno almoço, depois caminhar, comprar e fazer almoço e demasiado cansado depois para fazer algo mais que não dormir. Entretanto ela acordava. Top, o mundo lá sabia que afinal o Ricardo até era feliz entre as 6h00 e o meio dia. Foi quando resolvi criar a personagem de Instagram Ricardo Veiga, o atleta pesadinho que deixava a pele toda na estrada enquanto filosofava sobre coisas básicas como.... escolhas. Não era eu mas era um pouco, chegou a viver por mim durante largos meses, cada vez que necessitava esconder-me da luz, a preto e branco é muito mais fácil.
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Percebi que o curto plano resultava. Foi a faísca de que necessitei para tomar opções e para ganhar confiança para voltar a sair à procura de trabalho. E, na verdade, a correr cada vez mais. Foi pouco depois que fiz a primeira meia maratona, já empregado. Figueira da Foz, Junho de 2018.
Cheio de valentes dores todos os dias, claro. Era tudo à bruta, o que me interessava era exorcizar-me diariamente nem que me caísse uma perna. A fúria lá foi passando, mesmo com algumas recaídas da tal depressão, umas mais leves que outras, mas cada vez mais consciente de que a corrida tinha vindo para ficar mas, para que a tal perna não me caísse, necessitava de ter alguma cabeça. Lá a fui ganhando, o mínimo, talvez. O mínimo de cabeça para não me lesionar a sério e já a pensar seriamente em planos de melhoria. Assim tem sido, tem corrido muito bem, com altos e baixos, claro, mas muito orgulhoso.

 Nestas coisas é sempre cedo para cantar ao mundo os resultados mas já consigo tirar algumas conclusões: a corrida é a minha actividade favorita hoje em dia, só não tenho é tempo para me dedicar tanto a ela. Hoje, num contexto pessoal já 100x melhor, estável e em franca evolução, é curioso como já não a uso para acalmar a tal fúria, antes para me alinhar novamente com o Ricardo que sabe porque começou a correr. Agradecer, agradecer e agradecer. Calçar os ténis e ir, sempre que dê. Para quem lê e se possa, de certa maneira, rever no que escrevo, fica a sincera mensagem: vale mesmo a pena aguentar, por muitas dúvidas que o contexto possa trazer. É urgente trazer actividades para a nossa rotina que nos reforcem positivamente, só essa luta interessa, tudo o resto vem com o tempo, acreditar e ter a pachorra possível. Repetir depois, ter fé e repetir.

  •  Modalidade de atletismo preferida

Corrida de médio e longo curso, preferencialmente em estrada mas convidem-me que eu estou por tudo.

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  • Prefere curtas ou longas distâncias

Sinceramente eu gosto de todas as distâncias, vejo um charme diferente mas igualmente irresistível em todas elas.
Não posso, no entanto, negar que sou um apaixonado pelas provas longas.
Sou louco pela ideia da superação pelo esforço e pela fé, pela raiva e pelo amor, no acreditar que vale a pena o sacrifício que é correr mais que duas horas, o morrer e o renascer, a ideia da redenção por via do dar cabo do corpo desta maneira...porque metemos na cabeça que temos que ir do ponto A ao ponto B de sapatilhas, sejam 10, 20, 30, 40. Está muito lá ao fundo, para lá da vista, o nosso destino, o ponto de chegada onde o mundo e a vida voltam a fazer sentido. Tenho que acreditar que ali vou ser feliz, nem que o seja apenas no sprint para a meta, confesso que já chorei muito a sprintar para uma meta, como acontecia chorar sempre antes de arrancar para uma corrida, bastava motivar-me com um "sabes como chegaste aqui".
A sensação de glória e heroísmo por saber que corri na corda bamba do meu limite, por nada palpável na verdade. Não sou nenhum Gebresselasie ou Kipchoge e nunca hei de subir a um pódio, isso torna tudo demasiado quixotesco para a ideia não me emocionar de imediato.
A minha cabeça é racionalmente refém da lógica para muito do que faço e para o modo como estruturo o meu pensamento mas, para loucuras destas, deixo toda a lógica na almofada e deixo as minhas entranhas conduzirem. Por isso não me considero, hoje nem nunca, um atleta; sou um tipo que, como muitas outras pessoas, necessita de experiências que o tragam uma ilusão da realidade. Um conto, uma história, um romance de faca e alguidar de cada madrugada de folga que saia à rua, é isso que procuro.

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  • Na atual equipa desde

Sempre corri sozinho, mas isso faz parte da minha maneira de estar. Necessito muito de explorar a minha solidão para depois apreciar a companhia dos outros.
No entanto dá-me um gozo descomunal quando, pontualmente, tenho a hipótese de correr com algum dos meus caríssimos amigos que também partilham desta paixão.
Encontrar a Lígia Casimiro em metade das provas que faço é muito reconfortante, correr com ela é como sentar-me a uma mesa com família próxima e não ter que dizer nada, está tudo ok. Ter-te reencontrado a ti é altamente motivador, especialmente pelos conselhos sábios e valentes tareias que me dás, afasto-me de ti sempre mais sábio, os trails faço-os por norma com o meu querido Pedro Marques, dos tipos mais singulares que conheci até hoje, um verdadeiro camarada cheio de paz, inteligência e solidariedade. Guardo também com muita saudade a oportunidade de ter corrido um par de madrugadas com o meu "irmão de armas" Ricardo Mota, ex-companheiro de outras aventuras e alguém que tb admiro muito a nível pessoal.
É claro que quero também muito correr com outros. O meu querido Mário Dias, tenho que ir fazer uma loucura com ele assim que alinharmos agendas. Ele é a maior máquina que conheço, assim como o João Nunes que, infelizmente, viu há poucos meses uma lesão interromper-lhe uma evolução segura e que eu muito invejo.
E.... Last but definitely not least, a minha mui querida Noemi Cruz, das pessoas mais próximas que tenho, que me puxou pra correr da primeira vez e que está a necessitar de um empurrão fraterno para levantar o rabo do sofá e voltar a correr. Tarefa minha, claro...

  • Volume de treinos por semana

Depende muito de como anda a minha vida, tem levado algumas voltas, felizmente que, por boas razões, não consigo sair para a estrada mais que 2/3x por semana no máximo.
No entanto, tenho aproveitado essa menor disponibilidade para correr tantas vezes para fazer muitos mais quilómetros sempre que possível. Esse facto, aliado a mais dias de descanso e a uma regularidade aceitável de treinos funcionais tem-se revelado essencial a uma melhoria nítida de performance.

 

(fim da primeira parte, continua amanhã)
Importância dos treinos

Importantissima. Sou da opinião que a consistência é a chave para maior rapidez, resistência e, acima de tudo, maior conforto na adversidade típica das provas longas.
Os treinos devem ser o mais diversos que conseguirem, desde rolar mais tempo, tirar 45 minutos para fazer umas séries, treinar rampas, corrida progressiva, fartleks, tudo ajuda a cimentar cadencias mais elevadas associadas a maior resistência e disponibilidade física quando a prova o exige.

Reconheço mas nem sempre consigo essa consistência. Se tiver que aconselhar alguém, é por aí mesmo: consistencia e diversificação de treinos.

  • Se tem  ou não treinador

Não e sim. Eu próprio, os meus amigos corredores mais próximos, e dezenas de ideias de gente confiável nas internetes.
Resumindo: sei o que hei de fazer mas tudo depende do meu tempo e da minha vontade em fazer treinos específicos uma vez que em 90% das vezes eu quero é sair à rua e rolar.
Ou seja: não tenho, sou muito teimoso e, nove em cada dez vezes eu faço o que quero, ninguém me aturaria. :)

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