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O que não mata, engorda e transforma-te num maratonista

Em novembro de 2016 era obeso. Depois comecei a correr, eduquei a minha alimentação e tornei-me maratonista. Mais tarde, tornei-me pai. Correr é uma das minhas paixões. Ser pai é outra. Corro todos os dias.

Em novembro de 2016 era obeso. Depois comecei a correr, eduquei a minha alimentação e tornei-me maratonista. Mais tarde, tornei-me pai. Correr é uma das minhas paixões. Ser pai é outra. Corro todos os dias.

O que não mata, engorda e transforma-te num maratonista

21
Out21

Fazer exercícios com o bebé acordado


João Silva

Esta fase também é muito engraçada.

Para que fique bem claro, as minhas sessões de treino são feitas sem o Mateus, mas depois há dias em que não consigo fazer o reforço muscular nem alongar no final do treino. E depois há as sessões de rolo muscular.

Estes três momentos são feitos perto do Mateus. Mesmo à sua frente. A ideia até foi da Diana.

Sobretudo no caso do rolo, não achei muita piada no início, mas depois percebi que era mais uma forma de estar com o Mateus, de o envolver na nossa vida e de passar momentos divertidos.

Claro que a execução não é tão boa, mas aí nem interessa tanto isso.

Tem mais valor a altura em que ele vem ter comigo, trepa por mim acima, me "rouba" o rolo ou espreita pelas minhas pernas enquanto alongo.

Ser pai (e mãe) é ter todo o tempo contado. Fazer estas coisas na presença do bebé é fazê-lo sentir-se bem junto dos pais e é uma forma de ir lutando contra as dificuldades de fazer tudo o que está previsto na agenda.

Não percebi isso no início, mas agora não largo esses momentos.

Aconselho mesmo. É terapêutico, se calhar, até mais para os adultos do que para os bebés, mas eles também se divertem imenso. 

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19
Out21

Fazer exercícios enquanto o bebé dorme


João Silva

Se fazer exercícios físicos durante o adormecimento do bebé é algo de "relativamente simples", fazê-los enquanto o bebé dorme é, desde logo, brincar com o fogo.

Se há verdade absoluta é que "nunca se acorda um bebé".

Ainda assim, agora que conseguimos que o Mateus dormisse as sestas na cama, fico com ele no quarto para garantir que está tudo bem.

E o que fazer nesse tempo? Quando não tenho de trabalhar, aproveito para fazer exercícios físicos.

Quais?

Abdominais,

Crunches,

Levantamento das pernas,

Pranchas

E alongamentos que não impliquem ficar de pé.

Tudo serve para estar em forma, sobretudo, psicológica.

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17
Out21

Fazer exercícios enquanto se adormece um bebé


João Silva

Sempre fiz questão de juntar a paternidade e o desporto. Não faço questão de o levar para o desporto (de forma impositiva), embora tivesse gosto nisso, mas também não pretendo perder a minha identidade.

Tal como a esposa, também tomo conta do meu filho todos os dias e, naturalmente, tenho de o adormecer.

Desde o início que o faço com ele ao colo. Criou-se uma ligação.

Nos momentos mais complicados, e são muitos, fazer exercícios físicos durante o adormecimento resultou muito bem e permitiu-me manter a minha atividade física nos dias em que tive de parar a corrida.

Ficam alguns exercícios que faço ou já fiz com o meu bambito ao colo:

Caminhada pelas divisões da casa, 

Levantamento de pesos (não é nada leve este bebé), 

Agachamentos (enquanto se tira a louça da máquina, se trata da comida, se arruma roupa nas gavetas), 

Lunges ou estocada para a frente, para trás e para o lado (para o adormecer),

Técnicas de abertura lateral de cada perna (quando ele só dormia ao colo durante o dia). 

E, por aí, há histórias do género? 

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15
Out21

O tempo de cada um


João Silva

O bicho, como lhe chamavam, dificilmente se irá embora na totalidade. Provavelmente, ficará como algo cíclico. Tal como outras doenças. 

Mas teve o condão de nos afastar do contacto humano. Sempre gostei da socialização, embora não fosse um fanático de toques e contactos físicos.

Desde o início de tudo isto que cingi os meus cumprimentos e as minhas proximidades à minha família mais chegada.

No entanto, chega uma altura em que é preciso dar o passo seguinte. Ou seja, estar em espaços com mais pessoas. 

Esse, confesso, foi o medo que ainda não perdi por completo.

Estou vacinado e estive a treinar afincadamente para participar na maratona do Porto, prova onde estou inscrito desde 2019. A dada altura desta viagem, lesionei-me, o que deixou tudo .águas de bacalhau.

Mas, apesar de todo o empenho nos treinos, confesso que não percebi se estaria pronto para partilhar o espaço com milhares de participantes. Mesmo com partidas segmentadas.

Foi um bloqueio que se criou e que percebi quando comecei a ver fotos de provas de colegas e dava por mim a dizer que não seria capaz de estar ali.

A segurança absoluta foi roubada. Mas também é tempo de trabalhar a aproximação. E, nos últimos tempos, já me sentia mais tranquilo com a ideia.

Se o conseguirei fazer entretanto ou não é algo que ainda não descobri. Esta lesão também ajudou a fazer crescer a hesitação, ainda que por outras razões. Mas acho que é legítimo que cada um precise do seu tempo para se libertar...

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13
Out21

Também se abrem oportunidades


João Silva

É uma espécie de clichê mais recente no mundo do desporto. Porém, é verdade.

Sem me perguntarem, obviamente que não queria ter parado por causa de uma coisa que se arrasta há seis semanas. Até porque nunca se sabe o tempo exato que se demora a chegar novamente ao ritmo em que se estava. Que isso aconteça às portas da prova para a qual trabalhámos torna-se ainda mais doloroso.

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No entanto, após uma fase de "luto" (no meu caso, de revolta e de chatice), o chip muda.

Mediante a lesão, abrem-se algumas possibilidades de trabalhar outras coisas.

Novamente mediante a gravidade, estar lesionado também requer uma postura ativa da nossa parte, porque é necessário preparar o regresso sem o espectro de uma recaída.

No meu caso, depois de lamentar o sucedido e de parar de pensar no fim do mundo, procurei um conjunto de exercícios que potenciassem o reforço da zona afetada (glúteos e coxa). Também foi um momento em que trabalhei muito a zona abdominal.

Já sabia que nunca poderia começar logo no ritmo em que parei, portanto, era importante ter força em zonas estratégicas para suportar os primeiros dias de corrida, que ainda parecem uma miragem por esta altura.

A todo este nível, foi muito importante ter conhecimento de exercícios de ioga e de pilates. Igualmente essencial: os exercícios só foram feitos até ao ponto em que me senti confortável para não ressuscitar a dor.

Acho que, mais uma vez, se aplica o ditado "fecha-se uma porta, abre-se uma janela".

No meu caso esta janela foi aberta pela fisioterapia. Os exercícios de reforço do adutor e do glúteo não tardaram a dar uma enorme estabilidade à perna. A dor começou a espreitar apenas em momentos esporádicos. 

O caminho ainda parece ter alguns quilómetros até poder começar a correr, mas já há muitas melhorias e, sobretudo, crença...

11
Out21

Objetivos furados ou revistos


João Silva

Mesmo sem saber inicialmente se ia correr a maratona no Porto em novembro, treinei com um propósito na cabeça: fazer a prova em 3h15. O meu recorde atual está nas 3h21 também naquela cidade em 2019.

Tracei um plano diferente do habitual, mais centrado num ritmo elevado. Reuni várias informações de vários corredores mais experientes e foi assim que cheguei ao meu plano final, que fui ajustando em função do meu desgaste.

Isso deixou-me orgulhoso, honestamente. E houve momentos em que acreditei mesmo que era possível (tudo começa na crença e a minha baseava-se nos resultados dos treinos técnicos de velocidade). Também houve (muitos) momentos em que duvidei, principalmente, porque o plano era muito exigente, o que aumentava consideravelmente o cansaço.

Mas depois chegou a contratura muscular acompanhada do bloqueio da zona sacro-ilíaca e da tensão na banda iliotibial no final da nona semana de treinos. E isso obrigou-me a atrasar tudo. Já levo cerca de 8 semanas sem correr. Quando retomar a corrida, não terei logo o ritmo que tinha.

Muito longe disso. E para não prejudicar tudo e não correr o risco de me defraudar a sério, retirei a meta das 3h15. Já não fazia qualquer sentido. Não deixei de acreditar, porque sei que me transcendo nas provas de maratonas. Ficou, em vez disso, como desejo secreto.

Mas já não tenho esse valor médio como objetivo. Vai como sonho e, muito honestamente, um sonho que terá de esperar um ano para ser concretizado. Até porque esta lesão mostrou, uma vez mais, que não é um dado adquirido acabar uma maratona só porque já se fez a distância 10 vezes (quatro em provas). Cada maratona tem a sua história.

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E esta não contará a minha história.

09
Out21

A alimentação neste contexto


João Silva

Quando se tem um grande volume de treino, o gasto energético é elevado. Uma lesão pode significar uma quebra no exercício e, consequentemente, no consumo de alimentos.

A situação piora um pouco quando a lesão afeta alguém com algum histórico de obesidade. Não quer dizer que recaia à primeira oportunidade, nada disso, mas neste ponto é muito importante ter disciplina.

Desde que comecei a correr há quase cinco anos que sempre pensei: "como vou fazer quando/se não puder correr?".

Ponto prévio importante: já há mais de dois anos que não como produtos processados, gorduras saturadas ou açúcar/produtos com açúcar. Deixei porque não me fazia falta, o meu pensamento afastou-se desse tipo de alimentos. O foco na corrida foi decisivo para esse esquecimento. Não houve influências das modas.

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Posto isto, o meu problema com a lesão não era a tipologia de alimentos, era, isso sim, o ajuste da quantidade de comida. Não, o processo não é linear e, nos primeiros dias, o corpo vai pedir a quantidade de energia que estava habituado a receber. Só que não há um gasto igual. É necessário dizer não. Como já tinha tido estas experiências no passado, conhecia as reações do corpo: tonturas, momentos de muita fome (sobretudo ao acordar), má disposição. Tal como no passado, isto passa ao fim de alguna dias (cerca de uma semana) e permite-nos ajustar o corpo à energia de que precisa.

Por outro lado, os exercícios que foram introduzidos na fisioterapia e o tipo de treino alternativo que tive também me permitiram não fazer um corte muito brusco, porque isso seria complicado de gerir.

Quando se lesionam ou ficam impedidos de treinar por qualquer motivo, ajustam ou não o consumo energético?

07
Out21

Tratar de uma lesão

E lamber feridas pelo meio


João Silva

O processo começa por ser mental.

Por muito que quisesse manter a calma, a minha cabeça ia parar sempre ao pensamento de que poderia ter sido o fim. É algo estúpido e nem sequer tenho o direito de me queixar por me ter lesionado (só) agora (também fiz para que não acontecesse mais cedo, importa referir). Há que relativizar.

Depois do pensamento do "fim", veio o pensamento de que os objetivos para esta maratona seriam afetados (e foram). Aqui, tenho de ser sincero, já aceitei a realidade mas parece que vai ser muito complicado recuperar o nível em que já estava (com, por exemplo, 28 km corridos em 2 horas).

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Esta luta mental é a primeira grande barreira para aceitar e enfrentar uma lesão.

Até porque na parte mental também se insere a culpa pelo que aconteceu, mas são, efetivamente, situações que ocorrem algumas vezes sem erros. Porém, não foi o caso aqui.

A tudo isto segue-se a fase de tratamento. Aqui é importante adotar uma disciplina para que nada falhe, senão tudo o resto cai por terra.

O passo seguinte é a recuperação ativa. Sim, recuperar de uma lesão não é "só" esperar a ação do tratamento. Chega um momento em que é preciso fazer alguns exercícios para promover o reforço muscular (quando possível). Mas é preciso deixar vir o tal momento sem o provocar à força.

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Neste passo é muito importante ir com calma. É tão importante quanto difícil, sobretudo, quando se é muito ativo e quando se sente muita dificuldade em aceitar o impedimento de dado desporto.

Foi duro para mim. Vivi "no limbo". Ora preocupado porque não via melhorias e o tempo continuava a passar, ora entusiasmado nos momentos em que a dor aliviava.

E aqui tive de me reinventar. Não parei o exercício físico. Talvez devesse tê-lo feito, mas não deu. Não correr deixou-me a ressacar, quase ao ponto de olhar com "inveja" para quem via a correr (a dada altura, virou tristeza). Uma estupidez. Tal como foi o péssimo feitio com que fiquei (quer dizer, o feitio já era mau, acabou foi por ficar ainda pior).

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Sem corrida, concentrei-me na bicicleta estática (a uma velocidade muito muito lenta para não agredir a zona lesionada) e em muitos exercícios básicos de reforço muscular. O objetivo era não perder o máximo possível da forma que tinha.

E, se no início custou imenso arrancar para esta limitação, depois aceitei bem e comecei a redescobrir o entusiasmo com o treino. E porquê? Porque senti o meu corpo a melhorar. O anti-inflamatório etoricoxib estava a fazer efeito e a mobilidade foi aumentando. Mas isto foi nas primeiras noites. Assim que acabei o primeiro tratamento, tinha mais mobilidade mas também mais dores sem qualquer medicação. Mais uma ida ao centro de saúde.

As noites foram a parte mais difícil, porque o primeiro relaxante muscular me fazia sentir dores de morte ao levantar. Parecia que me ia desmontar. O segundo relaxante, por seu lado, acabou por me oferecer noites mais suaves.

Não foi o fim do mundo, há coisas bem piores, mas, quando é connosco, tudo tem um peso diferente. Por isso, é crucial ter cabeça fria para avaliar bem o estado das coisas.

05
Out21

Repousar ou o flagelo de um "mexilhão"


João Silva

Repouso. A arte de não forçar o corpo para o ajudar a recuperar. Tudo muito belo na teoria. Faz todo o sentido parar a dada altura para depois regressar bem.

O único senão disso é quando o repouso é administrado a alguém que passa muito pouco tempo sentado ou deitado, a alguém que não pára quieto por esta ou aquela razão.

Como não podia correr nem fazer exercício intenso, procurei fazer algumas atividades a pé. Para entreter o filhote, não me neguei a fazer caminhadas com ele ao colo no ergo baby (onde tive dois belos momentos de dores sem sequer conseguir levantar a perna). Em vez de ir de carro ao centro de saúde, fui a pé (mais de 1,5 km para cada lado). Ainda que com muito menos intensidade, fiz estática (a própria médica aconselhou, mas também recomendou calma). Ou seja, parei de correr, mas não parei de fazer exercício. Passei para a estática e para o reforço muscular. Mas não repousei o suficiente. E poderei ter atrasado assim o processo de recuperação.

No entanto, em abono da verdade também é relevante dizer que esse exercício todo ajudou a manter o foco no regresso e que foi útil para recuperar a mobilidade e a flexibilidade.

IMG_20210710_055952.jpgNuma fase mais avançada da lesão, onde a medicação ajudava mas a dor teimava em não desaparecer, tive de recorrer a sessões bidiárias de alongamentos para ajudar o músculo piriforme. 

Já no tratamento de fisioterapia dediquei-me ao reforço muscular e à bicicleta estática. Sempre com o consentimento de quem me tratou. A condição era não provocar dor.

 

03
Out21

Entre a esperança e a desilusão


João Silva

Foi assim que vivi o período após o treino de 04 de setembro em que me lesionei.

Percebi logo que aquilo não tinha sido um episódio como outros em que consegui correr apesar de ter dores. Era uma lesão. A lesão que sempre achei que apareceria.

E com isso chegou o medo maior: O de não estar na maratona em novembro. Depois veio a calma e a ideia de que ainda havia tempo até ao dia da prova.

No entanto, comecei a gerar outro pensamento: com esta paragem da corrida ficava sem grandes perspetivas para um grande desempenho.

Até ao dia em que fui ao médico para ser avaliado, ora alimentava a esperança e o espírito combativo ora me deixava dominar pela tristeza e pela desilusão de quem, no fundo, sabia que tinha perdido um sonho que estava a construir.

O primeiro diagnóstico foi uma contratura no glúteo. E, efetivamente, o músculo estava duro e eu não conseguia abrir a perna, por exemplo. Nova ida ao centro de saúde uma semana depois e aí comecei a perceber que tinha um problema mais permanente.

Injeção para aqui, relaxantes musculares e anti-inflamatórios para ali. Nada de corrida, só bicicleta estática e reforço muscular. E repouso. Mais uma grande dose de esperança depois de deixar o centro de saúde. Mais uma dose de desilusão quando tive de lá voltar uma semana depois.

Logo de seguida, mais uma enorme dose de desilusão por não sentir evolução positiva no problema e por ver que a segunda médica percebia pouco do que se estava ali a passar.

Este limbo dos dois primeiros dias estendeu-se às três semanas seguintes.

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O desespero tratou de fazer o resto. Diz, quem viveu comigo nesse tipo, que o meu feitio ficou ainda mais detestável.

Gostava de dizer que não tinham razão...

Ao fim de três semanas, ganhei juízo e falei com a equipa. Fui visto na clínica que trata os elementos da ARCD e recebi a notícia de que tinha um bloqueio na zona sacro-ilíaca e uma tensão na banda iliotibial. Este tempo todo sem correr provocou também um encurtamento muscular na perna direita. 

No meio da desilusão de todo este tempo sem saber o que tinha, também houve espaço para a esperança. Tinha mais 2/3 semanas de tratamento localizado.

Esperança no regresso...

 

 

01
Out21

Foi ali que tudo parou (por uns tempos)


João Silva

Estava no penúltimo treino do segundo ciclo para a maratona. Estava no final da nona semana de treinos sem quaisquer paragens. Era dia de treino longo.

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Depois de uma noite com um bebé ao colo, comecei com algumas dores nas costas. Nada de anormal, pensei. Já tinha acontecido. O treino não estava a correr extraordinariamente bem.

Ao quilómetro 24 voei no bom sentido. Atingi o ritmo que queria e pensei que o treino tinha valido por aquela ponta final.

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Só não consegui prever que aquele seria o último treino de corrida durante algum tempo. Durante muito tempo. Demasiado tempo.

Ainda antes de acabar o treino, perto do quilómetro 27, senti um pequeno desconforto algures entre o glúteo médio e a zona lombar. Não foi nada de mais, mas comecei a sentir dificuldades para correr ao mesmo ritmo.  Quando parei, dez minutos depois, já não consegui andar em condições. A partir daí, fui tendo muitos problemas para mover a perna direita. O ato do pé a tocar no chão era muito doloroso.

Como previsto, fomos visitar os meus pais e senti dores de morte para ter o meu bebé ao colo. Mover a perna em condições era uma miragem. Percebi logo que não iria correr no dia seguinte.

Caminhar era um suplício. Havia movimentos "finos" em que não conseguia mexer a perna. Temi o pior e aconteceu o dito.

Estava longe de saber que aquilo ia comprometer (e mudar) a minha evolução para a maratona do Porto de 2021. Estava longe de tudo, sobretudo, de poder voltar a treinar.

29
Set21

O jogo do gato e do rato


João Silva

Muitas vezes, mesmo agora nesta fase da minha vida, esta é a minha relação com a comida.

Isto não tem a ver com a tipologia de alimentos. Já o disse várias vezes,  mas repito: por uma questão de opção e de reeducação, neste momento, não como alguns alimentos. Não é uma imposição, não é uma norma, é apenas vontade, porque não, não são os alimentos (genericamente) que engordam, são as quantidades e as confeções.

No meu caso, há mais de dois anos que não como açúcar nem produtos processados.

Dito isto, o meu jogo de gato e rato com a comida tem mais a ver com a quantidade, por um lado, e com aquilo que sei que tenho de fazer (em termos de exercício físico) para poder comer determinada quantidade do que quero. Até porque está tudo relacionado com o gasto energético.

Isto não me parece totalmente mau, até que porque como em função do treino que tenho.

O lado mau é a sequência de viciação em que se pode cair. Depois acabamos por nos tornar reféns e isso obriga a uma certa rotura mais brusca com determinadas escolhas em alturas mais duras....como esta.

Estou numa fase em que não quero perder, quero manter e, se possível, aumentar a massa muscular. No entanto, há mais de três semanas que não posso correr. O corpo não deixa por agora.

Ora, para ganhar massa muscular aconteça, tenho de ingerir mais coisas. É normal e comum. O problema surge depois na cabeça, que, devido ao passado de obesidade, tem mais dificuldade em lidar com o facto de estar a comer mais em dada altura.

No que toca ao exercício, como normalmente é diário e em grande quantidade, acabo por ter "espaço" nas minhas contas.

Em alturas de preparação de provas, normalmente, é preciso perder algum peso para conseguir aumentar e melhorar o desempenho. Não é uma obrigação, é um processo natural, mas a experiência tem-me mostrado que é preciso secar para levar o corpo para outros patamares.

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No meu caso, e esta é outra observação da minha situação, se perder demasiado peso, começo a sofrer em termos cognitivos. Perco a capacidade de concentração, as minhas reações são mais intempestivas e o meu feitio fica ainda pior.

É um jogo em que é preciso ter muito cuidado entre os dois extremos.

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Como o jogo para poder gerir melhorar o meu sentimento de culpa com a comida, "tenho" de correr todos os dias. Senão entro em curto-circuito...precisamente o que me tem acontecido mas últimas semanas.

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Mas somos animais de hábitos. E somos capazes de nos adaptar às situações. Relativizar e aprender são as palavras de ordem. Com uma pitada de racionalidade, fica uma bela receita. O difícil é acertar nas quantidades.

27
Set21

Bloqueios


João Silva

Uma enorme percentagem de um bom desempenho recai sobre o lado mental.

Se pensarmos no futebol ou no ciclismo, é o bloqueio mental e a falta de confiança que levam muitas equipas ou atletas a cair em desgraça.

Ora isto não é diferente entre atletas amadores e profissionais. Só que os profissionais conseguem ter mais mecanismos de apoio.

No entanto, um belo par de bloqueios é bem capaz de nos travar.

Não sou exceção e até consigo identificar alguns fatores que me impedem de ir mais além (não só em termos desportivos).

Reconhecê-los é importante, mas tem sido difícil ultrapassá-los.

Desde logo, tenho o bloqueio do medo. Por exemplo, medo de dar o descanso necessário ao corpo para que consiga assimilar os treinos. Medo de que parar um dia seja sinónimo de deixar de correr (este ponto carece de mais umas semanas para dar uma resposta válida). Medo de mudar alguns hábitos de treino, porque isso me "mandaria para fora de pé".

Depois do medo, a insegurança, que se reflete, por exemplo, no permanente levantar de obstáculos às minhas escolhas. Incapacidade (voluntária) para reconhecer o que foi feito e para usar isso "como cartão de visita".

A rotina da metodologia: jogar ao gato e ao rato com os mesmos métodos, impede-nos de evoluir.

Há inúmeros pontos de bloqueio, mas há um que é uma espécie de parafuso que se solta sempre na minha cabeça: a comparação. É importante relativizar o que fazemos e reconhecer que há quem faça melhor do que nós, mas isso nunca nos pode melindrar nem tirar a capacidade de agir.

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25
Set21

Autodestruição


João Silva

Há uns dias falei na autoestima e na sua existência na minha vida pela via do desporto e agora trago a outra companheira de vida: a autodestruição.

Pois bem, sempre tive de sobra e, infelizmente, nem a corrida me ajudou a resolver isso, embora ainda me permita acalmar.

Este fenómeno consiste em mecanismos mentais que visam o autoinsulto permanente e o julgamento permanente de todas as minhas ações.

Transferindo isto para a corrida, reflete-se na não valorização das conquistas, na elevação de expectativas, na incompreensão face a alguns aspetos de treino e na comparação frequente com outros elementos.

A consequência imediata de tudo isto é minar a minha confiança, o meu desenvolvimento.

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Porém, este fenómeno pessoal já me assombra desde a minha infância. Não é novo.

A minha insegurança e o meu sentimento de inferioridade tratam de fazer o resto.

Agora que voltei a uma fase mais débil da minha personalidade, consigo criticar-me com maior facilidade, o que me faz pior.

No caso da corrida, este ano está a ser uma maravilha para o "manda-abaixo", porque os resultados não foram bons no primeiro semestre e isso é mais uma forma de minar o meu próprio progresso.

Dou por mim a questionar constantemente as minhas opções. Não é mau fazer o papel de polícia mau de nós próprios. O problema é fazê-lo de forma desmedida e destrutiva, que não leva a lado nenhum.

A rever.

23
Set21

7 meses sem parar (com direito a vídeo)


João Silva

Já o disse muitas vezes: de 22 de setembro de 2020 a 26 de abril de 2021, corri todos os dias sem direito a folgas.

Foi uma opção que voltaria a ter.

Como forma de apresentar um post diferente, a dada altura decidi gravar um vídeo com as ilações que tirei de todo o processo.

Podem vê-lo aqui, no link do meu canal de YouTube:

Também podem passar por lá, espreitar os outros vídeos e subscrever o canal. Não me oporia mesmo nada a isso.

 

(P.S.: esta segunda tentativa parou no dia 04 de setembro com uma lesão. Foram quatro meses a correr todos os dias.)

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